2025-10-06

Mas o que é isto?

1 Acordei cansada. Estariam os outros servos brincando comigo? Ou seria verdade? Ele é o Príncipe? É ele que quer brincar comigo? Já não me agradava a aproximação de um mordomo do palácio, de um nobre é muito pior.
— Tenho que enxotar ele! Vou fazer ele correr quilômetros.

2 — Lá vem o tratante! Primeiro vou confirmar que ele é quem dizem ele ser.
— Confirmou e tem a pachola de vir com jogo de palavras.
— Vou largar minha bomba!
Mas quero um lugar mais tranquilo, meus colegas não precisam saber meu segredo.
Há! Tem o caramanchão, serve bem pra isso.

3 — Vejo susto, vejo raiva, vejo nojo...
Deu certo ele fugiu, e dei sorte: não me bateu.

4 — Mas o que é isto? Minhas pernas amolecem, meu corpo não se aguenta e começo a chorar profusamente.
 
5  — Mas o que é isto? Ele voltou! Vai me bater? Se agachou, pegou minhas mãos trêmulas, me abraçou, falou algo—  dentro de meu choro não entendi —, e ele chorou, nós dois choramos, um alimentando o choro do outro.


Nós comungamos o choro, nunca tinha visto isto; mesmo minha mãe chorava pelo que aconteceu comigo, nunca chorou comigo e esse nobre, este Príncipe veio comungar.

6 Era o início da noite quando conseguimos caminhar, um não dizia uma palavra para o outro (e precisava?), o refeitório já tinha encerrado. O Chefe Chico, que veio desculpar-se com o Príncipe que já não havia comida, notou nossos olhos, nossas faces.
Julio disse que aceitaríamos o que tivesse, o Chefe raspou as panelas, comemos em silêncio.

7 Após a refeição, Julio queria me acompanhar até o alojamento, tive de convencê-lo que eu estava bem e, principalmente, que precisava ficar sozinha e que ele também precisava deste tipo de solidão.

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