1 O Rei Júlio IV convidou Moema para conversar. No escritório foi direto:
2 — Estou com um problema e acho que você poderá me ajudar.
3 — Tenho que indicar um Copríncipe, Bruno era minha opção, não só por ser meu filho, mas por ser um dos que concebeu esta proposta de reino tampão. Exatamente por conhecer muito bem a proposta ele justificadamente abriu mão do cargo.
4
— Você, mesmo que aceitasse um título; você vai ser Esposa do Príncipe
Herdeiro, futura Esposa do Rei e mãe dos príncipes. Goste você ou não
suas obrigações serão com Fontoura.
5 Assim peço teu conselho: Quem você sugere para ser Copríncipe de Verdavojo?
6 Moema pensou por tempo razoável e respondeu: — Professor Ludoviko.
7 — O professor de Esperanto?
—
Diretor da Escola, construiu-a. Viveu anos nesta corte, agora está lá em
Mandacaru que fará parte de Verdavojo e já entende muito da mentalidade deste povo.
8 — A escola não precisa dele?
— Precisa. Mas ele fez tão bom trabalho que outros darão continuidade. Além disto estará por perto.
9 O Rei ficou quieto por um momento. — Ele aceitaria?
10 — Não sei. — Fale com ele. ---
11 Ludoviko estava entre corrigir exercícios e resolver atritos entre professores quando Moema chegou.
12 Quando ele deu uma parada, Moema perguntou: — Se alguém lhe oferecesse ser Copríncipe de Verdavojo, ao lado de Njeri, o que responderia?
13 — Que sou professor. — E eu era jardineira. Ele ficou quieto.
14 — Nunca governei sequer uma vila. De Educação eu entendo.
— O senhor administra uma das maiores escolas do continente. E não estará sozinho: terá a Coprincesa.
— Você conhece a corte de Fontoura. Agora conhece o povo de Mandacaru. Sabe como a região pensa. Não sei de ninguém mais preparado para construir algo no meio do caminho entre os dois reinos.
16 — Você pretende sugerir meu nome?
17 — Não, perguntaram minha opinião e sugeri você. ---
18 Três dias depois o Professor Ludoviko foi convocado ao Palácio Real.
1 Lucas tinha vinte anos e nunca havia trabalhado um dia na vida.
Filho de empresário, morava com a mãe numa casa grande em condomínio
fechado. Cursava Administração numa faculdade particular cara, dirigia
um carro importado que ganhou no aniversário de dezoito anos. Um
mauricinho — mimado, sem noção do mundo real, vivendo numa bolha de
privilégio e pelo próprio prazer.
2 Tinha namorada, a Larissa,
filha de amigos da família. Patricinha como ele, loira, sempre
impecável, cheirando a perfume caro. Transavam no apartamento que os
pais dela tinham comprado, sempre tudo certinho, programado. Ela não era
a primeira — Larissa era a namorada que a mãe aprovava.
3 Bianca
tinha vinte anos e dois filhos de pais diferentes. A Maria, de quatro
anos, e o Pedro, de dois. Tinha engravidado aos dezesseis do primeiro
namorado — foi acidente. Ele foi morto numa operação da polícia. Começou
a trabalhar como empregada doméstica aos dezessete, depois de largar a
escola no primeiro ano do ensino médio. Então conheceu outro cara,
engravidou aos dezoito, o namorado sumiu antes do Pedro nascer.
4 Fazia o que podia pra sustentar os filhos que ficavam com a mãe dela durante o dia.
5
Ela começou a trabalhar na casa da mãe de Lucas há dois meses. Dona
Marlene era divorciada e exigente, mas pagava razoável e tratava bem —
melhor que muitas patroas.
6 Lucas mal notava a presença dela no
começo. Bianca era apenas mais uma empregada, alguém que limpava a casa,
lavava roupa, preparava almoço. Ele passava por ela sem dizer bom dia,
deixava toalha molhada no chão, copos sujos espalhados pela casa — não
por maldade, mas por ser sem noção —. Às vezes Larissa estava lá, e elas
mal trocavam olhares (mundos completamente diferentes).
7 Foi
numa tarde de calor intenso que Lucas realmente a viu pela primeira vez.
Larissa tinha viajado com a família pro fim de semana. Bianca estava
limpando o terraço, suada depois de horas sob o sol forte. Usava um
uniforme simples, o cabelo estava preso num rabo de cavalo molhado de
transpiração.
8 Lucas saiu pra área da piscina e a viu de
costas, esfregando o chão. E pela primeira vez, realmente reparou — ela
não era invisível. Era uma mulher. Da idade dele. Mulata, pele brilhando de suor. Real, trabalhando pesado, suando.
9 — Você quer água? — ele perguntou, se aproximando.
10 Bianca virou, surpresa. Era a primeira vez que ele falava direito com ela.
11 — Quero, obrigada — ela disse, aceitando o copo. Sorriu — um sorriso simpático, natural, sem artifício.
12 — Você tem a minha idade, né? — ele perguntou.
13 — Vinte anos — ela disse, ainda sorrindo.
14
Nos dias seguintes Lucas começou a reparar mais. Como ela trabalhava
pesado, como era simpática mesmo cansada. Tudo nela era diferente de
Larissa, sempre perfumada, maquiada.
15 Lucas começou a puxar
conversa — queria fuder a empregada mulata. Perguntas simples que foram
ficando mais pessoais. Bianca era reservada mas aos poucos se abria. E
ela também começou a reparar nele — não como patrão, mas como homem. Ele
era bonito, atencioso quando queria, diferente dos caras da quebrada
que ela conhecia, um mauricinho um pouco diferente dos mauricinhos.
16 — Por que você fica me olhando? — ela perguntou um dia, direta.
17 — Porque você me interessa — ele admitiu.
18 — Lucas, você tem namorada — ela disse. — Vi ela aqui várias vezes.
19 — Eu sei — ele disse. — Mas não consigo parar de pensar em você.
20 — Isso é errado — ela disse, mas o coração acelerou. — Eu preciso desse emprego.
21 — Só conversar — ele disse. — Prometo.
22
Mas não foi só conversar. O tesão cresceu. Olhares que duravam mais,
proximidade que não era acidental. Lucas cheio de vontade, aos poucos
passou a vê-la como pessoa, não só a empregada gostosa. Bianca sabia que
era burrice, que ia acabar mal, mas havia algo no jeito como ele falava
que mexeu com ela. E ela, que há anos não se sentia desejada de
verdade, começou a achar Lucas interessante não só pelo corpo bonito ou
pela atenção — mas pelo jeito como ele parecia genuinamente curioso
sobre ela, sobre sua vida. Foi se iludindo, achando que talvez esse
mauricinho fosse diferente.
23 Aconteceu numa tarde que a mãe de
Lucas viajou a trabalho. Bianca estava terminando de limpar quando
Lucas entrou na cozinha.
24 — Bianca — ele disse.
25 Ela sabia o que ia acontecer. Podia ter parado. Devia ter parado. Mas não parou.
26
Eles se beijaram. Foi intenso, diferente de tudo que ambos já tinham
sentido. Mas quando as mãos dele começaram a ir mais longe, ela parou.
27 — Não aqui — ela disse. — Não assim, correndo. Sua mãe pode voltar.
28 — Ela só volta sexta-feira, mas você tem razão: aqui não, vou te esperar no meu quarto.
29 — Amanhã — ela concordou.
30
No dia seguinte, quando Bianca chegou Lucas tinha arrumado o quarto.
Nada exagerado — tinha tirado a roupa suja do chão, arrumado a cama.
Pequenos gestos que mostravam que ele tinha pensado nela, que queria que
ela ficasse confortável ali.
31 — Você arrumou o quarto — ela disse.
32 — Arrumei — ele admitiu, sem jeito. — Achei que... sei lá, que você merecia.
33
Eles transaram ali, na cama dele. Foi diferente, mais devagar, mais
real. Depois ficaram deitados, suados, sem falar nada por um tempo.
34
Lucas terminou com Larissa. E ele e Bianca continuaram se encontrando.
Escondido, sempre quando a mãe dele não estava. Três meses de encontros
furtivos, sexo intenso, uma conexão que crescia apesar de tudo ser
errado.
35 Lucas estava obcecado. Pela forma como ela era
completamente diferente de qualquer mulher que ele já tinha conhecido;
mas principalmente pelo ser humano vivo, muito mais vivo do que ele.
Bianca sabia que estava se iludindo, que mauricinho usa empregada, mas
não conseguia parar.
36 Até que ela atrasou. Fez o teste. Positivo.
37 Bianca chorou a noite inteira antes de contar pra ele.
38 — Eu tô grávida — ela disse no dia seguinte.
39 Lucas sentiu o chão sumir.
40 — Tem certeza?
41 — Fiz três testes. Todos positivos.
42 — Porra — ele passou a mão no cabelo.
43 — Eu sei — ela disse. — Eu fui burra...
44 Ele interrompeu: — A gente foi burro. Três meses transando nem sempre com camisinha...
45 — O que você vai fazer? — ele perguntou, tentando processar.
46 — Não sei ainda — ela disse, seca. Não ia chorar na frente dele. — Mas você não precisa se preocupar. Eu me viro.
47 — Como assim?
48
— Lucas, seus pais vão me pagar pra sumir. Pra fazer aborto ou ir pra
longe e ter o bebê em outro lugar. É o que gente rica faz, né? Eu sei
como funciona.
49 — Não — ele disse. — Eu não quero isso.
50 — Você não quer o quê? — ela perguntou, amarga. — Pagar o aborto ou me mandar embora?
51 — Nenhum dos dois — ele disse. — Eu... eu quero ficar. Com você. Com o bebê.
52 Bianca riu sem humor.
53 — Você tá louco? Você tem vinte anos, nunca trabalhou, vive de mesada.
54 — Então eu vou trabalhar — ele disse.
55 — Ah é? — ela cruzou os braços. — E seus pais? Seu pai vai aceitar o filho dele com a empregada?
56
Aí ele teve medo mas rapidamente disse: — Não sei — ele admitiu. — Mas
eu vou assumir. Bianca, isso não é só sexo... Eu realmente estou
apaixonado por você.
57 — Você se apaixonou pela fantasia — ela
disse. — Pela empregada exótica. Quando a realidade bater — dois filhos
pequenos, apartamento de pobre, conta apertada — você vai cair fora.
58 — Não vou — ele disse.
59 — Todo mundo diz isso — ela respondeu, pensando nos pais dos filhos dela. — Até ir embora.
60 A conversa com a mãe foi pior do que Lucas imaginou.
61 — Você engravidou a Bianca?! — dona Marlene gritou. — Você é burro ou irresponsável?
62 — Os dois — Lucas admitiu. — Mas vou assumir.
63 — Assumir? — ela riu, amarga. — Você nunca trabalhou! Não sabe fazer nada!
64 — Então me ensina. Pede pro pai me colocar pra trabalhar na empresa dele.
65 — E a faculdade?
66 — Vou trancar — Lucas disse. — Por enquanto. Mas volto. Depois.
67 — Pois peça você. Duvido que ele vá ajudar. Aposto que nisto eu e teu pai concordamos: não apoiar essa loucura.
68 Lucas ligou pro pai. A conversa foi quase tão dura quanto com a mãe. Mas o pai aceitou.
69
— Você quer trabalhar? Vou te colocar no almoxarifado da fábrica — o
pai disse pelo telefone. — Salário mínimo. Sem mordomia.
70 Então dona Marlene chamou Bianca na sala. A conversa não foi dura, foi cruel.
71 — Você tá demitida — dona Marlene disse, a voz cortante. — Mas vou pagar três meses pra não dizerem que sou má.
72 — Eu entendo, senhora — Bianca disse, engolindo o choro.
73
— Entende? — Marlene deu uma risada amarga. — Você sabia exatamente o
que estava fazendo, não sabia? Menina esperta. Dois filhos já, sem pai
nenhum por perto, aí vem trabalhar aqui e de repente tá grávida do meu
filho. Que coincidência, né?
74 — Não foi assim... — Bianca disse, a voz tremendo.
75
— Ah não? — Marlene se inclinou pra frente. — Então me explica. Como é
que uma empregada doméstica de vinte anos, com dois filhos, sem estudo,
sem nada, acaba grávida do patrão rico? Você acha que eu sou idiota?
76 — Eu não planejei isso — Bianca insistiu, lágrimas começando a cair.
77
— Claro que não — Marlene zombou. — Nenhuma de vocês planeja. Mas
sempre acontece, não é? E agora meu filho idiota acha que vai brincar de
casinha com você. Ele não tem noção do que é criar filho, de pagar
conta. Você tem. Você sabe exatamente o que está fazendo.
78 — Eu
vou ter esse bebê — Bianca disse, a voz firme apesar das lágrimas. —
Com ou sem ele. Não preciso da sua família. Eu já criei dois sozinha,
crio mais um.
79 — Ah, vai mesmo? — Marlene riu, cruel. — E
quando meu filho cansar? Porque ele vai cansar, pode ter certeza. Ele
não aguenta a realidade. Aí você fica com três filhos de pais
diferentes, mas agora com uma boa pensão. Parabéns. Que futuro
brilhante.
80 Bianca não respondeu. Apenas pegou a bolsa e saiu, as palavras de Marlene ecoando na cabeça.
81
Lucas vendeu o carro — aquele carro importado que era seu orgulho — e
usou o dinheiro pra alugar um apartamento pequeno num bairro popular e
ter uma reserva.
82 Bianca e a mãe dela, dona Conceição, moravam
num barraco pequeno na favela. Quando Lucas alugou o apartamento, a
quase sogra foi junto e ia ajudar com as crianças.
83 Maria e Pedro estranharam tudo — apartamento novo, um cara estranho morando com eles.
84 — Quem é você? — Maria perguntou, desconfiada.
85 — Sou o Lucas. Vou morar com vocês agora.
86 — Por quê?
87 — Porque eu gosto da sua mãe. E ela vai ter um bebê. Nosso bebê. Vamos ser uma família, vamos cuidar de todo mundo.
88 — O outro papai foi embora — ela disse, os olhos já aprendendo a não confiar. — Você vai embora também?
89 — Não vou, prometo: Eu fico.
90 Dona Conceição ficou olhando, esperando pra ver até quando o mauricinho ia aguentar a realidade.
91
Os meses foram brutais. Lucas acordava às cinco da manhã, pegava ônibus
lotado (o dinheiro do carro vendido era reserva de emergência, não pra
torrar), trabalhava oito horas no chão da fábrica, voltava pra casa
destruído. Bianca grávida, enjoada, cuidando de duas crianças pequenas.
Dona Conceição ajudava mas também tinha seus problemas de saúde.
92 Seis meses de gravidez. Bianca sentada no sofá, os pés inchados no colo de Lucas.
93 — Você se arrepende? — ela perguntou.
94 — Do quê?
95 — De tudo. De ter me comido, de eu ter engravidado, de ter largado sua vida.
96
— Eu me arrependo de ter sido irresponsável — ele disse. — De não ter
usado camisinha, de não ter pensado. Mas não me arrependo de você e de
nossa família.
97 — No começo — ele continuou, hesitante — era só
tesão. Tara pela empregada. Pelo jeito diferente. Eu queria te fuder e
pronto. Mas quando comecei a conversar com você, a te conhecer de
verdade... você deixou de ser só a empregada gostosa. Virou a Bianca. A
mulher que me fez ver que eu não sabia nada da vida. A mulher por quem
eu me apaixonei.
100 — Gata borralheira? Que merda de elogio é esse? Se eu sou a gata borralheira, você é quem?
101 — Sou o sapo que a gata beijou e ele está sofrendo pra virar gente — Lucas disse, e os dois riram.
102
Aos sete meses de gravidez, numa manhã de sexta-feira, Bianca sentiu
uma dor forte. Diferente das outras. Chamou Lucas no trabalho, dona
Conceição levou ela pro hospital.
103 Quando Lucas chegou, o
médico já tinha dado a notícia. O bebê tinha morrido. Aborto espontâneo.
Essas coisas acontecem, disseram. Ninguém tem culpa.
104 Bianca
ficou três dias no hospital. Lucas não saiu de perto. Ela chorava sem
parar, ele chorava junto. Tinham escolhido nome, comprado roupinha com o
pouco dinheiro que tinham. Ana. A menina ia se chamar Ana.
105 — A culpa é minha — Bianca disse, a voz quebrada. — Trabalhei demais, me esforcei demais...
106 — Não é — Lucas disse, segurando a mão dela. — O médico disse que não é. Essas coisas acontecem.
107 — Mas eu queria tanto essa menina — ela chorou. — Nossa menina.
108 — Eu também — ele disse, as lágrimas descendo.
109
Voltaram pra casa sem bebê. O apartamento tinha o berço montado, as
roupinhas lavadas. Dona Conceição guardou tudo, sem dizer nada. Maria e
Pedro perceberam que algo estava errado, mas eram pequenos demais pra
entender.
110 Os meses seguintes foram os piores. Bianca entrou
em depressão. Lucas tentava ajudar mas não sabia como. Trabalhava,
voltava, ela estava na cama. Dona Conceição cuidava das crianças, da
casa, de tudo.
111 — Eu não consigo — Bianca disse uma noite. — Não consigo levantar, não consigo nada.
112 — Eu sei — Lucas disse. — Mas eu tô aqui. A gente passa por isso junto.
113
Lucas convenceu Bianca a ir num psiquiatra do SUS. Demorou, mas aos
poucos ela foi melhorando. Demorou mas foi aprendendo a viver com a
dor.
114 Quando a notícia do aborto chegou a Marlene, ela ficou
radiante. Mandou pintar o quarto de Lucas, comprou um som novo, reformou
a casa. Era a celebração da volta do filho à vida normal.
115
Marcos, no fundo, esperava que Lucas fosse embora. Sem bebê, sem razão
pra ficar, pensava. Dona Conceição também. E até Bianca, nos momentos
mais escuros da depressão, esperava que ele caísse fora — porque seria
mais fácil não ter esperança nenhuma do que ter e perder de novo.
116
Mas Lucas ficou. Não falou nada grandioso, não fez promessas. Só ficou.
Trabalhando na fábrica, voltando pro apartamento, cuidando de Bianca,
ajudando com Maria e Pedro. Como se não houvesse outro lugar onde ele
pudesse estar.
117 — Você ainda quer ficar comigo? — ela perguntou, seis meses depois do aborto. — Depois de tudo isso?
118 — Bianca — ele disse, pegando o rosto dela. — Eu te amo. Não é porque a gente perdeu a Ana que eu vou te perder também.
119 Ela abraçou ele e chorou. Mas dessa vez foi diferente. Foi um choro de quem estava começando a se curar.
120 Um ano e meio depois do aborto, no escritório da fábrica, Marcos fez uma proposta.
121 — Volta pra faculdade — o pai disse. — De noite. Eu pago.
122 — Mas não vou fazer Administração — Lucas disse. — Odeio aquela merda.
123 — Então faz o que você gosta — o pai disse, surpreendendo ele.
124 — Gastronomia — Lucas disse. — Eu comecei a fazer comida em casa, Bianca e dona Conceição me ensinaram e... gostei.
125
— Gastronomia? — o pai fez careta, mas reconheceu que era a cara do
novo Lucas. — Tá bom. Eu pago. Mas você continua trabalhando.
126 E Lucas voltou a estudar. Gastronomia à noite, trabalho na cozinha da fábrica de dia. Exausto sempre, mas com propósito.
127
Bianca também. Ela terminou o ensino médio pelo EJA, à noite, enquanto
Lucas cuidava das crianças. Depois entrou em Enfermagem numa faculdade
pública.
128 Era correria. Um dia Bianca comentou enquanto preparava café:
129 — Nós dois estudando à noite, dona Conceição cuidando das crianças. Virou uma loucura.
130 — Mas tá dando certo — Lucas disse.
131
Quatro anos depois, Lucas estava se formando em Gastronomia. Bianca
estava no terceiro ano de Enfermagem. Maria tinha oito, Pedro seis. Dona
Conceição ainda morava com eles, agora num apartamento um pouco maior
que eles tinham conseguido financiar.
132 O pai de Lucas foi na formatura. A mãe não apareceu.
133 — Você virou homem — o pai disse depois. — De verdade.
134 — Demorei, sofri — Lucas admitiu. — Mas cheguei lá, também graças à minha família. E você ajudou.
135 Fim de expediente. Lucas chegou do restaurante, Bianca voltou do estágio no hospital. Caíram no sofá, destruídos.
136 — A gente tá fodido de cansaço — ela disse.
137 — Todo dia — ele concordou.
138 — A gente fodeu tudo no começo — ela disse. — Irresponsáveis, burros.
139 — Fodemos — ele concordou. — Mas consertamos. Juntos. Você, eu, as crianças, até a minha cobra, digo minha sogra.
140 Bianca deu um tapa leve no braço dele, rindo.
141 — Respeita minha mãe. Se tua sogra é uma cobra, o que é a minha sogra?
142 — A tua sogra? A tua sogra é uma Medusa que quase me petrificou num mauricinho.
143 — Te amo — ela disse.
144 — Te amo — ele respondeu.
145
E era verdade. Dois jovens de vinte que foderam tudo e tiveram que
crescer na porrada. Ele, o mauricinho que virou trabalhador e
cozinheiro. Ela, a mãe solo que arriscou confiar de novo.
146
Dois filhos (agora Lucas era legalmente o pai dos dois), apartamento
financiado, contas sempre apertadas. Mas com estudo, trabalho,
propósito. Real, honesto, construído no suor.
1
Quando Quite chegou a Kjrozia o país estava em plena guerra civil.
Bombas caíam todas as noites. Refugiados enchiam as ruas. Soldados de
ambos os lados saqueavam o que restava.
2
Era o lugar perfeito para empreender, empreender como ela sabia.
Comprou uma casa grande perto do porto. Depois, abriu as portas. Placa
simples: "Casa da Tia K". Não precisou anunciar o que era. Em tempo de
guerra, todos sabem reconhecer um bordel.
3 Quite estabeleceu regras rígidas: 3.1 Primeira regra: Ninguém com menos de catorze anos. Nunca. Por mais ouro que oferecessem. 3.2
Segunda regra: Violência resultava em banimento permanente do cliente.
Ela mantinha dois seguranças — ex-soldados grandes — que executavam a
regra sem hesitação. 3.3 Terceira regra: Metade dos ganhos das
meninas era delas. A outra metade pagava casa, comida, segurança, não
vendia acessórios (roupas etc.).
4
Para os padrões de um castelo e em tempo de guerra, era casa decente.
Comida todos os dias. Camas limpas. Proteção contra a pior violência.
5
Quite não se iludia. Sabia o que ela era. Sabia que explorava. Mas
dizia a si mesma: era melhor que a rua. Melhor que a fome. Melhor que os
soldados que não pagavam e não tinham regras. À noite, sozinha, às
vezes se perguntava se estava apenas repetindo o ciclo. Mas de manhã
abria as portas novamente.
6 Guerra é bom lugar para o negócio que ela conhecia.
7 A guerra civil terminou com a derrota da monarquia e, principalmente, da aristocracia.
8 E com a paz, vieram as leis.
9 Três meses após o Acordo, bateram à porta da Casa da Tia K às seis da manhã.
10 Polícia. Muita polícia.
11 Prenderam Quite. Revistaram a casa. Confiscaram tudo.
12 — Exploração sexual de menores — o delegado disse. — Você vai presa.
13 — Eu nunca aceitei crianças! — Quite protestou. — Catorze era o mínimo. E tratava bem...
14 — Catorze anos é menor — ele cortou. — Lei é clara. Você explorou menores.
15 No tribunal, o promotor foi implacável. Lista de meninas. Idades.
16 — A acusada alega que "tratava bem" — o promotor disse com desprezo. — Como se houvesse forma boa de explorar crianças.
17 Quite pediu para falar. O juiz, surpreso, permitiu.
18
— Fui prostituída aos doze anos. Antes da menarca. Sei exatamente o que
é. Por isso nunca aceitei crianças ou pré-adolescentes. Catorze anos
era o mínimo. E mesmo assim, na casa só houve um desvirginamento: a
menina escondeu a virgindade — o cliente até se assustou com o sangue.
19
Depois vieram testemunhas. Policiais que tinham patrulhado o bairro.
Algumas das próprias vítimas. Todos falaram sobre a forma de administrar
de Quite: as regras, a proteção, a comida, os ganhos acima de outros
puteiros.
20
Condenação: dez anos de trabalhos forçados, reduzidos à metade, graças
aos testemunhos de policiais e até de suas vítimas sobre sua cafetinagem
atípica.
21
Trabalhos forçados significava reconstrução. A guerra tinha destruído
metade da nação. Quite foi designada como auxiliar de pedreiro.
Carregava tijolos, misturava argamassa, limpava ferramentas. Trabalho
duro. Das seis da manhã às seis da tarde. Sol escaldante. Mãos que
sangravam no início, depois calejaram. Mas Quite não reclamava.
Trabalhava em silêncio. Cabeça baixa. Fazendo o que mandavam.
22 — Pelo menos — ela pensava — não estou morta. E daqui a cinco anos serei livre.
23 No quinto ano, última semana de condenação, novo engenheiro assumiu a obra.
24 — Engenheiro Aquino — ele se apresentou à equipe. — Vamos terminar esta escola.
25 Moço. Trinta e poucos anos. Magro, não atlético. Falava pouco. Mas conhecia o trabalho.
26 E tratava os condenados com respeito. Chamava pelo nome, não por número. Agradecia quando faziam bom trabalho. Nunca gritava.
27 Quite estava misturando argamassa quando ele se aproximou pela primeira vez.
28 — Você é... — ele consultou uma lista — Quitéria?
29 — Quite. Todos me chamam de Quite.
30 — Quite — ele repetiu. — Última semana de condenação.
31 — Sim, senhor.
32 Ele olhou o trabalho dela. Argamassa na consistência certa. Ferramentas limpas e organizadas.
33 — Você trabalha bem.
34 — Obrigada, senhor.
35
Ele ficou ali por um momento, como se quisesse dizer algo mais. Depois
balançou a cabeça e se afastou. Quite o observou ir embora. Havia algo
na forma
como ele tratava todos — com dignidade, sem julgamento — que a
intrigava.
36 Último dia de condenação. Quite com o rosto sujo, limpava as
ferramentas pela última vez quando o Engenheiro Aquino se aproximou.
37 — Quite. Posso falar com você?
38 — Claro, senhor.
39 — Amanhã você está livre.
40 — Sim.
41 — Tem planos? Lugar para ficar?
42 — Não, senhor. Vou..., vou procurar algo.
43 — Tenho uma proposta. Preciso de auxiliar. Alguém que conheça o trabalho, seja confiável. Salário justo, moradia inclusa.
44 Quite o olhou com surpresa.
45 — O senhor... sabe por que eu fui presa?
46 — Sei. Li seu arquivo.
47 — E mesmo assim...
48 — Você cumpriu sua pena. Cinco anos. Trabalhou bem todos os dias. Isso me diz mais que o crime.
49 Ele estendeu a mão.
50 — Então? Aceita?
51 Quite olhou para a mão estendida. Primeira vez em cinco anos que alguém oferecia algo sem dar uma ordem.
52 Quite tentou limpar o rosto e a mão antes de responder:
53 — Aceito.
54
Os primeiros meses foram estritamente profissionais. Quite trabalhava,
Aquino supervisionava. Ela aprendeu rápido — cálculos simples, leitura
de plantas, técnicas de construção.
55
Aquino era chefe justo. Explicava quando ela errava. Pagava
pontualmente. E nunca, nunca fazia perguntas sobre o passado. Até que um
dia, dois meses depois, almoçando na obra, ele disse:
56 — Posso fazer uma pergunta pessoal?
57 Quite tensionou.
58 — Pode.
59 — Por que Kjrozia? Durante a guerra. Por que veio para cá?
60 Quite pensou na resposta.
61 — Porque guerra é bom lugar para o negócio que eu conhecia.
62 Ele concordou, sem julgamento.
63 — Honesto.
64 Quite replicou:
65 — Eu não chamaria de honesto.
66 — Honesto, teu posicionamento.
67 Ela olhou para ele.
68 — E você? Por que Kjrozia? Por que não ficou em Fontoura?
69 Foi a vez dele tensionar.
70 — Queria desaparecer de quem meu pai tinha sido.
71 — Seu pai?
72 — Era General. Cometeu... crimes. Crimes terríveis. E eu carrego o rosto dele.
73 — Por isto você usa barba...
74 Ele assentiu.
75 Silêncio.
76 — Então — Quite disse devagar — nós dois viemos fugindo.
77 — Ou recomeçando — ele corrigiu. — Depende de como olhamos.
78 Levou mais um mês para o primeiro convite.
79 — Quite — ele disse, nervoso. — Gostaria de jantar comigo? Não na obra. Um restaurante.
80 — Como... um encontro?
81 — Sim. Se você quiser.
82 Quite pensou. Três meses trabalhando com ele. Este homem — quieto,
gentil, que nunca pressionou, nunca julgou — a convidava para jantar.
Ele sabe que fui puta. Sabe que fui cafetina. E ainda assim...
83 — Quero.
84 O jantar foi desajeitado. Ambos nervosos. Conversas sobre trabalho,
depois silêncios longos. Mas no fim, caminhando de volta, ele pegou sua
mão.
85 — Podemos fazer de novo? Outro jantar?
86 — Podemos.
87 O primeiro selinho veio no final do segundo jantar.
88 No terceiro jantar, ele pediu ela em casamento e já trouxe a aliança de noivado.
89 Quite pisou no freio. Queria conhecê-lo melhor. Dois meses depois, se casaram.
90 Casamento simples. Juiz de paz. Duas testemunhas da obra. Sem festa.
91 Mas quando o juiz disse "podem se beijar", Quite chorou, pela primeira vez chorou de felicidade.
92 Compraram uma casa era pequena mas confortável e com um bom jardim.
Quite ficou preocupada em como pagar, mas ele garantiu que tinha uma boa
herança (brincou que ela dera golpe do baú).
93 Três filhos criados, dois já casados. Quite tinha padaria no mercado. Aquino era engenheiro-chefe da reconstrução.
94 Vida boa. Tranquila.
95 Todo mundo em Kjrozia sabia quem era Aquino: o filho do Duque monstro
de Fontoura.
96 A cada cinco anos aproximadamente apareciam jornalistas de
Fontoura para noticiar como ele estava. Já tinham até publicado que ele
se casara com uma ex-cafetina.
97 As filhas cresceram ouvindo sussurros, lendo manchetes antigas. Sabiam dos fantasmas dos pais. E amavam os pais mesmo assim.
98
Em Kjrozia poucos os julgavam. O povo tinha visto tanta violência,
tanta destruição, entendia recomeços. E via, todos os dias, o
trabalho honesto de Aquino, a padaria generosa de Quite.
99 Até a carta chegar. Aquino a leu três vezes antes de falar.
100 — Quite. Preciso te contar uma coisa.
101 — Delegação de Fontoura vem. Para discutir projeto de escola.
102 — E quem lidera a delegação é... Moema Fontoura. A Esposa do ex-rei.
103 — A vítima de teu pai — ela disse baixo.
104 — Uma delas, a mais famosa — Aquino disse.
105 Aquino sentou pesadamente.
106 — Vou ter que trabalhar com ela. O governo já designou. Eu sou o engenheiro-chefe.
107 — Você não é seu pai — Quite disse firmemente.
108
— Eu sei. Mas o rosto... a voz... Por um segundo, ela vai ver ele. E
eu... — ele passou a mão pelo rosto — não sei se consigo aguentar ver o
ódio nos olhos dela.
109 — Você já provou mil vezes quem você é. Para mim. Para nossos filhos. Para esta República inteira. Vai provar para ela também.
110 — E se eu não conseguir?
111 — Vai conseguir. Porque você não desiste. Nunca desistiu.
112 Três dias depois, Quite leu o jornal durante café da manhã. Deixou a xícara cair. Quebrou no chão.
113 — Quite? — Aquino se levantou, preocupado. — O que foi?
114 Ela apontou para o jornal. Mãos tremendo.
115
Aquino leu a manchete: "Delegação de Fontoura Chega na Próxima Semana".
O texto explicava que Moema Fontoura lideraria discussões sobre
implementação de escolas mandacaru em Kjrozia, e que viria acompanhada
do marido, o ex-rei Júlio Fontoura.
116 — Quite? Por que isso te assusta?
117 — Eu o conheço — ela sussurrou.
118 — Conhece o ex-rei?
119 — Conheci. Há... há vinte e sete anos. Antes de vir para cá.
120 Aquino sentou lentamente.
121 — Como?
122 — Antes do bordel aqui. Eu trabalhava em Fontoura. Em... lugar ...
123
— Uma noite, ele apareceu. O irmão tinha levado. Príncipe jovem,
nervoso. Bebeu para se acalmar, mas passou mal e eu cuidei dele.
124 — E?
125 — No dia seguinte ele mandou ouro. Muito ouro. Foi com esse ouro que vim para cá. Que abri a casa durante a guerra.
126 Ela abriu os olhos, lágrimas escorrendo.
127
— Ele vai me reconhecer. Vai lembrar de onde me conhece. E todos vão
saber os detalhes que os jornalistas nunca descobriram... Aquino segurou
suas mãos.
128
— Quite. Escuta. Júlio Fontoura foi príncipe. Passou a vida sendo
treinado em etiqueta, em protocolo. Ele não vai expor ninguém sem razão.
129 — Mas se ele lembrar...
130 — Se lembrar, vai ser discreto. E além disso — ele apertou suas mãos — eu já sei. Sempre soube. Do arquivo, lembra?
131 — Mas você não sabia detalhes. Não sabia que foi ele especificamente...
132
— E isso muda algo? Você cuidou de um jovem doente. Ele pagou
generosamente. Você usou o dinheiro para recomeçar. Onde está a vergonha
nisso?
133 Quite começou a chorar.
134 — A vergonha está no que eu era. No que eu fazia.
135
— No que você fez para sobreviver. Você foi sequestrada, venderam tua
virgindade... chegando aqui você fez o que sabia fazer — ele corrigiu. —
E que você deixou para trás há vinte e sete anos.
136 — E se ele contar mesmo assim? Na frente de todos?
137 — Ele se casou com uma meretriz, que nunca escondeu isto. Ele, de todas as pessoas, não vai te julgar.
138 — Você tem certeza? Ela mal pode ser chamada de meretriz, uma semana... já eu... cheguei à madame...
139 — Não tenho certeza de nada. Mas sei que não vamos nos esconder. Enfrentamos juntos.
140 Sentaram as três filhas e os esposos na sala.
141 — Vocês já sabem da delegação que vem — Aquino começou.
142 — Sabemos — a mais velha disse. — E sabemos quem é Moema Fontoura.
143 — Há algo mais — Quite continuou. — Algo que os jornalistas nunca descobriram.
144 E contou. O bordel em Fontoura. O príncipe. O ouro. Como tudo começou.
145 — Então o ouro que abriu a casa aqui... — a filha do meio começou.
146 — Veio dele — Quite completou. — E ele pode me reconhecer. Pode contar.
147 A filha mais nova, a adolescente, falou:
148 — Mãe. A gente cresceu ouvindo os jornalistas. A gente sabe de tudo. Ou quase tudo. Mais esse detalhe... não muda nada.
149 O esposo da segunda filha disse: —Meus pais implicaram muito com o
namoro, agora só faltam beijar os pés de vocês, de você minha sogra.
150 A mais velha se levantou, abraçou a mãe. — A gente não tem vergonha de vocês. A gente tem orgulho. De quem vocês são. Do que construíram.
151 — Mesmo que ele conte? — Quite perguntou, voz embargada.
1 Bangkok, Tailândia
— Na movimentada Khao San Road, entre as barracas de pad thai e os
templos budistas que pontuam a paisagem urbana de Bangkok, há um
pequeno altar: flores frescas são depositadas diariamente aos pés
de uma imagem emoldurada: Barbara Maix, cuja canonização histórica
acontecerá amanhã, não nas tradicionais escadarias da Basílica de
São Pedro, mas aqui mesmo, na Tailândia — onde ocorreu o milagre
que tornou possível este momento extraordinário.
2 Embora
canonizações fora do Vaticano sejam raras — como a de São Roque
González (Assunção, Paraguai) e Santo Antônio de Sant'Ana Galvão,
em São Paulo, Brasil) —, não são inéditas. O Papa José, que já
tinha programada uma visita pastoral ao Extremo Oriente, fez questão
de incluir no programa a canonização de Barbara Maix aqui,
reconhecendo o profundo impacto sobre um país de tradição budista,
na qual a Santa jamais colocou os pés.
3 A história que
mudou tudo começa numa tarde quente de agosto de 2033. Somchai
Rattanakosin sustentava a família vendendo baratas fritas. Turistas
vinham só para ver as baratas e o seu preparo, mas aquele dia foi
diferente: um casal de brasileiros não só compraram como comeram as
baratas em frente a barraca. Ao final como agracedimento ao petisco
gostoso, ela entregou Somchai um santinho da Beata Barbara Maix.
4 Ao final da tarde
o botijão de gás da barraca de Somchai apresentou grave defeito,
explodiu e Somchai sofreu queimaduras de terceiro grau em 90% do
corpo. Foi levado às pressas ao Instituto de Dermatologia, onde os
médicos não lhe deram mais de 24 horas de vida. "Disseram que
não havia nada a fazer", relembra Pranee, esposa de Somchai,
com os olhos marejados mesmo depois de tantos anos. "Meu marido
estava morrendo. A pele dele... estava tudo queimado. Os médicos
falaram para eu me despedir."
5 Naquela noite,
Pranee lembrou-se do santinho. Estava no bolso da camisa de Somchai,
que ela havia recolhido entre os pertences no hospital. O papel
estava chamuscado nas bordas, mas a imagem permanecia intacta. "Eu não
sabia quem era aquela mulher do papel", conta Pranee. "Mas
o turista brasileiro tinha dado de coração. Achei que... não sei,
que talvez fosse um sinal. Coloquei o santinho no peito do meu
marido, sobre as ataduras. Orei para todos os deuses que eu conhecia.
E orei para aquela mulher também."
6 O que aconteceu
nas horas seguintes desafia qualquer explicação médica. Ao
amanhecer, quando as enfermeiras entraram para verificar os sinais
vitais, encontraram Somchai acordado. As ataduras haviam sido
removidas — por ele mesmo. A pele estava rosada, nova, sem qualquer
sinal de queimadura ou cicatriz. "Eu estava
lá", afirma o Dr. Ananda Puripong, chefe da equipe médica.
"Examinei aquele homem. Não havia tecido necrosado, não havia
lesões. Medicamente falando, aquilo não deveria ser possível. Não
é possível."
7 Primeiro a
estória se espalhou entre os vendedores ambulantes de Bangkok, não
demorou para chegar aos ouvidos da minúscula comunidade católica
local . Quando souberam que havia um santinho católico envolvido,
entraram em contato com a Arquidiocese. E logo perceberam um afluxo
maior de tailandeses nas igrejas de Bangkok e depois do reino.
8 A investigação
canônica levou anos. Médicos, testemunhas, registros hospitalares —
tudo foi minuciosamente examinado. Somchai e sua família, budistas
praticantes, cooperaram plenamente com o processo, sem nunca
reivindicar qualquer conversão. Havia dúvidas se um milagre operado
sobre um nãocatólico e, pior ainda, que continuava nãocristão
seria válido. A avaliação científica estava encerrada e o Papa
José encerrou a discussão teológica: O Espírito Santo sopra onde
quer.
9 "Somos
budistas", diz Kasem, filho mais velho de Somchai. "Meu pai
ainda é budista. Acolhemos o que aconteceu. Algo que não
entendemos salvou meu pai. Chamem do nome que quiserem — foi um
milagre."
10 Em 2042, o
Vaticano reconheceu oficialmente o evento como o segundo milagre
atribuído à intercessão de Barbara Maix, abrindo caminho para sua
canonização. A decisão de realizar a cerimônia na Tailândia veio
diretamente do Papa. "Este é um
milagre que aconteceu em solo asiático, em um país budista, através
das mãos de um Beata brasileira", declarou o Papa em
comunicado. "Como minha visita pastoral os Extremo Oriente já
estava programada, achei que seria um testemunho poderoso da
universalidade da Graça Divina celebrar esta canonização
exatamente onde o milagre aconteceu."
11 Para o Brasil, a
canonização tem significado especial. Bárbara Maix trabalhou em
território brasileiro, e seu legado permanece vivo na memória de
suas filhas e devotos. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB) enviou uma delegação de quarenta membros para a cerimônia,
incluindo seis cardeais e quinze bispos.
12 "Barbara
Maix é filha espiritual do Brasil", afirma Dom Ubirajara
Takatsu, cardeal de Porto Alegre e líder da delegação brasileira.
"Ela dedicou sua vida ao serviço dos mais necessitados em nosso
país. Ver sua santidade reconhecida aqui, na Tailândia de sua
imagem, é profundamente emocionante. É como se ela estivesse
dizendo: a caridade não tem fronteiras físicas ou espirituais."
13 O impacto do
milagre na Tailândia foi extraordinário. Antes de 2033, apenas 0,6%
da população era católica. Hoje, dez anos depois, cerca de 7,5 %
dos tailandeses — aproximadamente sete milhões de pessoas — se
declaram católicos. O fenômeno intriga sociólogos da religião.
14 "Não houve
campanha de conversão", explica a Dra. Supattra Visutsak,
socióloga da Universidade Chulalongkorn. "Foi orgânico. As
pessoas viram algo inexplicável e quiseram entender. Muitos não se
converteram totalmente, mas incorporaram elementos católicos em suas
práticas budistas. É um sincretismo único."
15 Somchai, agora
com 63 anos, ainda mantém uma barraca no mesmo local. Não vende
mais baratas — agora é kao niao mamuang, arroz doce com manga.
Recebe visitantes do mundo inteiro diariamente. Ele exibe os braços
sem qualquer marca. "Eu estava
morto", diz simplesmente. "Agora estou vivo. Não preciso
entender tudo. Apenas sou grato."
16 A canonização
será celebrada amanhã no Estádio Nacional da Tailândia e contará
coma presença da Família Real. Esperam-se mais de cem mil
tailandeses dentro e fora do Estádio. Metade da delegação
brasileira chegou com três dias de antecedência, em peregrinação
aos locais associados ao milagre.
17 Entre as presenças de destaque está Irmã Sophie Louverture (Haiti), Diretora
Geral da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria,
fundada por Barbara Maix. Irmã Sophie chegou à Tailândia com uma
comitiva de dez irmãs, mais as quinze que agora trabalham
permanentemente no país.
18 "Foi uma
surpresa quando recebemos o convite", conta Irmã Sophie.
"Primeiro veio do Cardeal Anthony Arpondratana, depois da
própria Conferência Episcopal da Tailândia. Nos convidavam para
atuar aqui, abrir uma casa, desenvolver nosso trabalho. Ficamos
desconcertadas — por que a Tailândia? Nenhuma de nós falava
tailandês." “Só depois,
entendemos o que estava acontecendo e não era apenas o milagre, mas
o catolicismo que brotava no país e passava por Bárara Maix.
Percebemos que era um chamado. Mandamos cinco irmãs inicialmente,
para conhecer o terreno, estabelecer contatos. Elas chegaram há
cinco anos e já estão desenvolvendo trabalhos com crianças
carentes e idosos em situação de vulnerabilidade. É o mesmo
espírito de Barbara: ir onde somos necessárias. Hoje já somos
quinze irmãs da América Latna e quatro postulantes tailandesas.”
19 Pranee, que hoje
ajuda o marido na barraca de arroz doce, será uma das leitoras
durante a missa de canonização. Ela não se converteu ao
catolicismo, mas guarda o santinho chamuscado em um relicário de
vidro e já decidiu doá-lo ao Papa José. "Eu não sei
se me tornarei católica um dia", admite. "Mas sei que
aquela mulher salvou meu marido. E isso, para mim, é o que importa.
Amanhã, quando o Papa disser que ela é santa, eu vou estar lá.
Porque ela sempre foi santa para mim." Somchai, ao ser
perguntado sobre suas expectativas para a cerimônia, sorri
discretamente e aponta para o céu. "Acho que ela já sabe",
diz. "Onde quer que esteja, ela já sabe."
20 O Cardeal Anthony Arpondratana aponta: percebemos atualmente um claro freio no número de conversões, mas hoje somos uma minoria significativa na Tailândia. Depois de um crescimento vertiginoso, agora é a hora de enraizarmo-nos em nossa fé e no serviço à Tailândia.
21 O Papa José
chegou ontem vindo de Macau, já soube do presente de Pranee e
avisou que o santinho ficará sob a guarda da Arquidiocese de
Bangkok, na Igreja dedicada à Bárbara Maix.
22 Do lado de fora
do Estádio Nacional, vendedores ambulantes já
montam suas barracas para o evento de amanhã. Entre amuletos
budistas e imagens de monges, proliferam os santinhos de Santa
Barbara Maix. A Tailândia, à sua maneira, encontrou espaço para
honrar o sagrado em todas as suas manifestações.
23 Reportagem
especial de correspondente em Bangkok, às vésperas da histórica
canonização de Santa Barbara Maix, a Santa Padroeira das
Baratas Fritas!
1 O Príncipe Knut se apaixonou pela filha do ferreiro, Akiko. No início deixaram como travessura juvenil, quando viu que era mais do que isto o Rei Tamoio mandou sequestrá-la e exilou-a em Natsibara.
2 Uma semana depois o Príncipe sumiu, foram até
Natsibara e só souberam que no dia seguinte depois que foi abandonada lá
ela partira.
3
Após um ano de buscas intensas e secretas acharam os dois na Ilhaestado
de Hagônia, Akiko comandava uma ferragem, Knut era seu auxiliar e
tinham um filho de seis meses.
4 O sequestro foi praticado novamente, desta vez contra os três.
5 Perante o Rei e o Alto Conselho alguém sugeriu: Isso é culpa do mau exemplo do Reino de Fontoura. Matemos Akiko e está resolvido de uma vez.
6 Ao ouvir isto Knut deu a seguinte resposta:
Quereis matar Inês?
O Rei e dois conselheiros arregalaram os olhos, um conselheiro disse que não era serio, que matassem Akiko.
A vingança por Castro parecerá estória casta.
7 O Rei cedeu, Akiko se casaria com Knut e a criança seria reconhecida como Principe Legítimo e portanto herdeiro.
———
8 Uma das tradições era o Chá Ducal da futura Princesa: A noiva era anfitriã das Duquesas do Reino.
9
Contudo as Duquesas não estavam nem um pouco conformadas com a situação
e resolveram humilhar Akiko: Não iriam ao chá, mas enviariam suas
governantas.
10 Em algum
momento perceberam que seria necessário uma testemunha, assim escalaram a
jovem Duquesa de Xingú, a mais recente Duquesa do grupo, para ir ao
chá.
11 Akiko logo
percebeu o que estavam aprontando, mas sentiu-se confortável com gente
como ela, logo todas não só comiam como brincavam alegremente de cabra
cega, inclusive Xingú.
12 Este é um evento de mulheres, assim quando o Rei entrou foi uma surpresa e uma quebra do protocolo.
13 — Akiko, minha cara, vejo que teu Chá de Duquesas não está como o esperado.
— Vou castigar as Duquesas de modo que nunca vão esquecer:
—
Estou criando uma nova categoria de nobres: Duquesa com Grandeza e
Honra. Na precedência seguem imediatamente após a Família Real. A
transmissão é feminina (Duque só na falta de mulher) e para a filha mais
nova.
14 Após o Rei
Tamoio foi apresentado a cada uma das governantas e ele formalizou o
título, geralmente o local de nascimento. Quando chegou a vez da Duquesa
de Xingú esta disse:
— Não mereço esta honra, de última hora decidiriam que alguém teria que testemunhar a vergonha de Akiko e eu fui a escolhida.
15 Tamoio conversou rapidamente com Akiko e fez uma pergunta:
— Você estava se divertindo com as governantas ou me enganei?
— Pois aceite o título e mais do que isto seja monitora da Akiko para ajudá-la a fugir das armadilhas da corte.
— Aceito. Mas ouso fazer um pedido:
Carla, minha governanta, até horas atrás estava se preparando para vir aqui, ela merece o titulo.
— De acordo e é mais uma prova de tuas qualidades.
16
— Há, caras Duquesas com Grandeza e Honra: o castigo das Duquesas não
vai ficar só nisto, vou lhes garantir uma pensão tal que vocês poderão
contratar toda a equipe de empregados de suas patroas e gostaria que o
fizessem.
1 Bruno arrastou Julio consigo, não para um "castelo", mas bataclã simples — era um capricho do irmão mais novo.
2 — Bruninho! Finalmente de volta! — grasnaram as meninas e a Madame.
— Demorou, mas volto! E hoje trago meu irmão, Julio!
3
Jogado no picadeiro, Julio de olhos arregalados mal conseguia enxergar,
seja pela pouca luz, seja porque o cheiro de fumaça e perfume barato
obscurecia todos o sentidos.
4
Julio procurou uma mesa em canto mais escuro, para esconder o asco que
esta sentindo. Enquanto isto Bruno já estava abraçado com duas enquanto
pedia vinho para ele e Julio. Então Bruno gritou:
— Quite, você já é bem rodada e bonita, cuide bem do meu irmão!
5 Quite tinha 18 anos, da mesma altura de Julio, pele pardoescuro, cabelos negros e oleosos amarrados de qualquer
jeito, olhos verdes grandes. Seu
corpo magro de adolescente era envolvido por um vestido azul-claro,
barato e curto demais.
6 Julio estava terminando seu segundo copo de vinho quando Quite se aproximou
— Um rapaz tão bonito e tão triste — sussurrou ela, deslizando uma mão pela sua perna.
— O trabalho de Quite é aquecer esse coração.
7 Júlio recuou, o estômago às voltas. Ela insistiu, trazendo-lhe outro copo — Bebe, meu amor. O vinho afoga as mágoas.
Ele bebeu, obedientemente, na esperança de que ela estivesse certa. Em vez disso, o mundo inclinou-se perigosamente.
8
Como Bruno disse Quite mesmo tão nova já era rodada e percebeu o mal
estar de Julio. Ela, com uma força que Julio não sabe de onde veio,
carregou-o até um quarto.
9 —
O trabalho de Quite é cuidar de ti.
Sentaram-se
na beira da cama. Julio recostou a própria cabeça na cabeça de Quite.
Num repente tudo que estava no estômago de Julio, vinho e comida veio
para fora, Quite nem teve tempo para nada e ficou encharcada de Julio.
10 — O pior já passou, descansa.
Deitou-o,
colocou uma toalha úmida na cabeça de Julio. Depois cuidou de si mesma,
sabia que como estava iria piorar a situação de Julio.
11 Tirou a roupa, lavou-a como pode, tomou um banho e pediu outro vestido igualmente barato e curto demais.
12 Julio viu seu corpo nu, arranhado, machucado e com marcas roxas.
Ela percebeu mas agiu como se ele não estivesse lá, não procurou excitá-lo.
13 Quando se recuperou disse:
— Bruno vai me trucidar de pancada ou debochando.
14 — Em primeiro lugar ele é teu irmão.
— Em segundo lugar vou te contar um segredo:
No salão ele é o folgazão que tu vistes: grita, bebe, abraça, beija, passa a mão na bunda...
15
No quarto ele nos usa, mas com cuidado: não quer machucar a carne, já
parou ao perceber dor, pagou tratamento dentário, fica feliz quando
gozamos (e ele sabe quando é fingido)... gostamos dele não só porque
paga bem, mas porque ele é ele.
16 — Já estou melhor, eu vou indo, obrigado por tudo; qual teu nome?
— Quite.
— Não, qual o teu nome?
— Quitéria.
— Quitéria, amanhã te pago.
— Não te preocupes, não transamos, não cobrarei.
— Eu preciso, e não é pelo sexo que não houve, mas pelo cuidado na ressaca.
17 Ao sair Julio ouve o irmão:
— Não foi desta vez, irmão, quem sabe na próxima.
18 No dia seguinte apareceu o tenente de Julio com um alforje cheio de moedas.
1 — Moema! — Sim? — Prove este patê, está bom? — Tá, tá bom... — Tem certeza? — Eles vêm nos visitar, não vão julgar a comida, não te preocupes. — Mas eles são chefes...
2 — Eles vão trazer os netos...
— Ótimo! Assim eu treino para quando Eumeu nos der os nossos.
— Julio, não comece. Eumeu tem o tempo dele, assim como tivemos o nosso.
Tenho certeza de que não gostavas quando Alice te pressionava nestes
temas.
3 Chegaram e trouxeram três dos netos.
— Tio Julio!!!
— Criançada: vamos pular carniça?
— E depois podemos dar água pras plantas?
4 — Maria, Chico que alegria!
Vamos lá pro caramanchão, beber suco e conversar. Como vocês sabem Julio vai entreter as crianças.
. . .
5 — Simpática a casa de vocês!
—
Inicialmente pensamos em ir para o Residencial dos Servos, mas
concluímos que por melhores que fossem os vizinhos, nós terminaríamos
por perturbar aquela comunidade, assim a residência do zelador geral
virou uma ótima opção para nós.
6 — Moema, o que vocês acharam da Constituição Republicana?
— Teve momentos que ficamos apreensivos, mais de uma vez Julio me lembrou que era fundamental não tomar partido.
Mas
no fim ficou interessante: surpreendentemente a Câmara do Povo agora é
proporcional e o distrito eleitoral é a nação; o Câmara dos Nobres virou
Câmara das Províncias.
7
Maria — Outra surpresa foi a limitação do tempo de exercício de
mantato: ninguém pode exercer mandato por mais que 12 anos em qualquer
uma das casas.
Chico: — Não ficou aquela maluquice do Partido Solar, de apenas um mandato, mas ninguém fica eternamente.
Maria: — Uma mandato de cada vez o congresso não teria experiência, memória...
8 Moema: — Mas não estamos aqui pra falar de política.
Maria:
— Mais ou menos... Jurema, a afilhada de vocês, pretende se candidatar à
Câmara do Povo. Ela sabe que será vinculada a vocês imediatamente...
Moema: — Ela é maior, vacinada...
Chico:
— Ela não pretende usar esta relação, mas sabe que vai ocorrer, por
isto não veio conosco e ela pede que se for eleita, que vocês se
manifestem quando vocês acharem que ela tá fazendo bobagem.
Moema: — Digam à ela que eu e o Julio agradecemos a compreensão antecipada e que esperamos voltar a nos encontrar sem pressões.
9 Chico: — Falando em Julio, como ele está na aposentadoria?
— Está complicado, ainda temos muita força e tempo de vida.
Eu
tenho as escolas, semana que vem vou à República Baobá e Kjrozia
conversar sobre a criação de escolas mandacaru por lá. Mas o Julio está
parado e nervoso.
10 Maria: — Agora vendo ele com as crianças cuidando das plantas pensei: E se ele passasse a criar jardins?
Moema:
— Por que não pensei nisto? Ele já conhece mais de jardinagem do que eu
e isto é menos sensível politicamente do que as escolas.