1 O Rei Júlio 5º optou por uma cerimônia de coroação breve, infelizmente o beijapés ele não conseguiu dispensar. Agora estou aqui na fila para realizar o ato de submissão. Mais do que ao Príncipe Bruno, irmão do Rei, todos têm os olhos fixos em mim, o 15º Duque de Áquila. O Rei aceitará a submissão do filho do homem que estuprou e marcou sua amada? Moema, a Esposa do Rei, como vai reagir à minha presença? Toda a dor que sofreu voltará em um instante?
2 Quando os repórteres começaram a bater na minha porta: eram abutres em busca de carniça. Mas a carniça só podia estar em outro lugar: Meu pai era um homem justo e honrado, não poderia de um rompante ter feito o que lhe acusavam de ter feito... Mas depois vieram denúncias semelhantes de batalhas mais antigas. E era claro que cada vez a crueldade aumentava, a constante: a marca na têmpora com a adaga da família. Revisei os diários da família e a marca era prática antiga.
3 Meu pai era um monstro! Minha família era de monstros! Por que não estava vivo para enfrentar a justiça? Que queime no inferno! Voltasse vivo, mas castrado e agora encarasse suas glórias!
4 O nome da família, outrora altivo, agora jaz na lama e de lá não vai sair. Se eu construir um hospital para vítimas de estupro, será que me esquecem? Dividir minha fortuna com as vítimas de meu pai, terei paz? Me jogar aos pés de Moema? — mas aí jogo as luzes sobre mim e este momento é do Rei Júlio 5º e sua Esposa, que optou por estar em segundo plano neste momento.
5 Não há o que fazer... eu para sempre serei o filho do monstro... não sou monstro, mas o herdeiro deles... Cada vez que saio à rua vejo os olhares, percebo os cochichos. A qualquer momento vai aparecer alguém para me esbofetear. Pensei em me enterrar, pensei em...
6 Amanhã se efetiva a minha baixa do exército. Aceitei um emprego na República de Kjrozia, é uma ilha pobre e devastada pela guerra civil que finalizou há cinco anos, ainda há muito para um engenheiro fazer. É isto que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que eu desejo: ser mais um engenheiro. Uma república nova que venceu a aristocracia não quer saber de títulos nobiliárquicos, mas sei que volta e meia os fantasmas do passado voltarão.
7 ...Chegou a minha vez, espero ter forças para fazer a cerimônia sem chamar mais a atenção para mim...
Tenho que dormir, há três noites que durmo mal. E esta tempestade só dificulta as coisas. Deito e fico correndo atrás do perfume dela. E esta tempestade só dificulta as coisas. É uma serva, labuta no jardim, mas exala... E esta tempestade só dificulta as coisas. Sua voz é um fagote cangaceiro. E esta tempestade só dificulta as coisas. É baixinha, mas uma trabalhadora forte. E esta tempestade só dificulta as coisas. A pele dela é um caramelo, será doce? E esta tempestade só dificulta as coisas. Os pequenos pés lembram pãezinhos. E esta tempestade só dificulta as coisas. No único toque senti as mãos calejadas. E esta tempestade só dificulta as coisas. Seus seios me parecem melões, serão? E esta tempestade só dificulta as coisas. O pescoço um palmiteiro robusto. E esta tempestade só dificulta as coisas. Os lábios uma taça de vinho. E esta tempestade só dificulta as coisas. Os olhos são dois potes de mel. E esta tempestade só dificulta as coisas. As sobrancelhas duas pontes poderosas. E esta tempestade só dificulta as coisas. Os cabelos um mar negro e ondulado. E esta tempestade só dificulta as coisas. A face lisa, só atravessada por uma cicatriz. E esta tempestade só dificulta as coisas. Essa cicatriz consegue ser bonita. E esta tempestade só dificulta as coisas. Deito e fico correndo atrás do perfume dela. E esta tempestade só dificulta as coisas.
1 A novidade da Concubina do Príncipe excitou a imprensa.
2
O prostíbulo foi facilmente localizado, de lá foi um pulo até Mandacaru
e com isto as barbáries do General, 14º Duque de Áquila, vieram à luz: o
herói de Fontoura era um monstro! Mais um pouco e descobrem que não
estava sozinho, outros generais eram iguais ou piores — não marcavam,
degolavam.
3 A pressão foi tal que o Exército se viu constrangido
a abrir um inquérito amplo não só para o caso de Moema, mas para outros
casos. Prepararam este inquérito como quem prepara uma operação
militar: era uma operação de contenção de danos, escolheram a dedo os
membros, subornaram testemunhas, escolheram bodes expiatórios (quase
todos mortos ou dementes), os incidentes seriam casos isolados...
4
Seis meses depois quando foram à Torre de Audiências apresentar as
conclusões; um comando de três generais estava escalado para contestar o
resultado como calúnias contra o Exército.
5 Após a leitura do
relatório, o Chanceler Real abriu as discussões e o primeiro a pedir a
palavra foi o Marechal da Reserva Rodrigues, Duque de Penedo.
6
Foi uma grande surpresa, o Duque de Penedo era o decano dos marechais,
em batalha perdera as mãos, uma perna e um olho e ainda assim conduziu
as tropas à vitória; sempre se posicionou em defesa da honra e dos
valores castrenses, raramente pedia a palavra, muitos generais nunca o
tinham ouvido ele discursar.
7 Geralmente quem está na reserva
fala após quem está na ativa, mas ninguém ousou tirar a primazia do
Marechal Rodrigues. Com todos seus ferimentos, com sua idade avançada
ele começou e surpreendeu pelo vigor de suas palavras:
8 — Esta comissão de inquérito é uma vergonha! O relatório apresentado não faz justiça ao Exército!
9 — A verdade é que muitos são os criminosos por ação e muitos outros por conivência e omissão!
10 — Depois das batalhas é comum generais e oficiais até se gabarem de feitos aqui relatados, pois sabem que serão acobertados.
11
— Repito, isto é comum e confesso perante todos: quando eu estava na
ativa estuprei três jovens, quando fui estuprar a quarta ela morreu
apavorada antes que eu a tocasse — fiquei tão impressionado que jurei
mudar de atitude e isto aconteceu, mas não por mérito meu: a 2ª Batalha
de Penedo garantiu que eu jamais cometeria essa monstruosidade outra
vez.
12 — Pela honra do Exército, mas principalmente pela honra
de nosso Reino, é necessário um inquérito verdadeiro e soluções reais,
não para acabar com isto: dificilmente acabará, mas que os monstros não
ousem mais se gabar de seus feitos.
13 — Era o que eu tinha para falar, agora retiro-me para minha casa e lá aguardarei as autoridades policiais.
A.1 Moema; cidadã de Fontoura; serva; trabalhadora dos Jardins do Palácio Real e exprostituta; 1,55m; 24 anos; pele cor pardoclara; rechonchuda mas não gorda; sobrancelhas espessas; na têmpora esquerda, na horizontal, tem uma cicatriz reta, não muito grande, feira à faca, que tenta esconder com os cabelos.
A.2 Júlio; Príncipe real de Fontoura; 1,70m; 20 anos; pele cor branca; magro, nãoatlético; desde criança evita contato social.
A.3 Bruno; Príncipe de Fontoura; 1,75m; 19 anos; pele cor branca; atlético e marcial.
A.4 Júlio 4º; Rei de Fontoura; 1,70m; 42 anos; pele cor branca; gordo mas não obeso.
A.5 Alice; Rainha de Fontoura; 1,75m; 40 anos; pele cor branca; rechonchuda mas não gorda.
A.6 Njeri; Princesa de Serrazul; 1,85m; 18 anos; pele cor negra; esbelta e imponente.
A.7 Tendai 7º; Rei de Serrazul; 1,80m; 40 anos; cor da pele negra; atlético e musculoso
A.8 Dandara; Rainha de Serrazul; 1,90m; 36 anos; cor da pele negra; esbelta e imponente.
1 O Príncipe apático
1.1 Fontoura era um reino como outros reinos e repúblicas do continente. Impostos eram coletados, estradas patrulhadas, as estações seguiam seu curso previsível e havia eventuais guerras com seus vizinhos.
1.2 No palácio, sob abóbadas que ecoavam silêncios vazios, a maior preocupação real não era com invasões ou revoltas, mas com a apatia crônica e congênita do herdeiro. Júlio, o Príncipe Herdeiro, movia-se pelos corredores indiferente ao convívio com a corte e às aulas que o preparariam para reinar, na verdade fazia isto desde que nascera. A própria Rainha ficaria aliviada se ele fosse de farras, beberrão, devasso ou brigão. Mas só se via apatia por parte do Príncipe.
1.3 Certa tarde, após terminar uma aula de musculação, Júlio, ainda vestindo o uniforme dos exercícios, caminhou pelo vasto jardim que cercava o palácio.
1.4 Entre árvores e canteiros, notou uma jovem serva lutando para plantar uma grande palmeira.
1.5 Júlio se aproximou e ofereceu ajuda. A jardineira, assustada, mas pensando que ele fosse um servo de alta categoria, aceitou a ajuda.
1.6 O trabalho de Júlio foi simples: sustentou a palmeira em pé enquanto ela colocava o substrato no berço e, ao final, ela fixou um tutor para mantê-la ereta.
1.7 O príncipe notou por baixo do lenço que cobria a cabeça dela, na têmpora esquerda da serva, uma cicatriz reta, feita à faca, que ela tentava esconder com os cabelos.
1.8 Quando terminaram, Júlio perguntou: — Qual teu nome? — Moema, e o seu? — Meu nome é Júlio.
1.9 Depois se despediram; a serva voltou para suas tarefas e Júlio retornou ao palácio, caminhando pelos jardins e pelos corredores um pouco mais agitados do palácio.
2 Galhos
2.1 Três dias depois, Júlio voltou ao jardim e encontrou Moema carregando galhos que haviam caído durante a tempestade da noite anterior. Ele se aproximou para ajudar, dividindo o trabalho de recolher os galhos com ela.
2.2 Suas roupas ficaram sujas, mas isso era esperado.
2.3 Ao entardecer, quando o trabalho terminou, Júlio acompanhou Moema até o refeitório dos servos. Moema sabia que a presença de um mordomo chamaria atenção, mas não podia fazer nada quanto a isso; Júlio, inclusive, fez questão de cear com os servos do jardim. Ele entrou na fila, recebeu sua porção de ração e percebeu que a comida quase não tinha gosto; de tempero, apenas o sal; mas comeu fartamente enquanto conversava com Moema. Após a refeição, se despediu e se retirou.
2.4 Assim que ele se afastou do refeitório, os servos começaram a rir e cochichar, chamando Moema de “princesa”. — Princesa? Eu? Quero distância, só estou aqui pelo dindin! — exclamou ela, indignada. Um dos servos explicou: — Ora, é que aquele rapaz… não é um servo qualquer e menos ainda um nobre: é o Príncipe Júlio!
2.5 Uma mistura de surpresa, desagrado e medo invadiu Moema. Sentiu-se enganada e ficou preocupada com as consequências. Naquela noite, deitou-se inquieta e dormiu apreensiva.
3 O Segredo
3.1 Na tarde seguinte, quando Júlio apareceu, ela então avançou contra Júlio perguntando: — É verdade? Você… você é mesmo o príncipe? Júlio, espantado com a agressividade dela, um pouco sem graça, respondeu: — Sou! — Você mentiu para mim! Já seria complicado falar com um mordomo, o que dirá com um nobre, um príncipe ou seja lá o que você é. Júlio respondeu: — Não menti, apenas não disse meu título. Você é que pensou que eu fosse um mordomo.
3.2 Depois disto Moema respirou fundo, tomou mais coragem e o levou até um caramanchão no jardim. Não era um lugar escondido, mas lá havia privacidade.
3.3 Lá Moema começou ainda com voz forte e irritada: — Você escondeu teu segredo, mas eu, agora, já vou te contar o meu segredo do qual não falo há anos. Moema então disse com voz sussurrada e tímida: — Antes de trabalhar aqui no palácio… por uma semana… eu fui puta.
3.4 Júlio ficou assustado, com raiva e nojo; saiu velozmente do local.
3.5 Não caminhou cem metros quando percebeu que, talvez, nunca mais encontraria outra pessoa tão sincera: sem ser provocada, sem subterfúgios e tão prontamente contou tal segredo... seria muito mais fácil esconder, negar, mentir.
3.6 Então voltou e encontrou Moema caída no chão, chorando. Júlio ajoelhou-se para ficar à altura dela, tomou-lhe as mãos e disse com a voz trêmula: — Perdão… me perdoe…
3.7 Então a abraçou, e as lágrimas vieram. Choraram juntos, e naquele instante Júlio quebrou dois grandes tabus de sua vida: sempre lhe haviam ensinado que um príncipe não chora e que nunca um príncipe deve pedir perdão.
4 Aulas
4.1 No dia seguinte Júlio pediu para Moema: — Por favor, me ensine jardinagem. Ela respondeu que era apenas uma auxiliar, mas o Príncipe insistiu. Moema percebeu que Júlio queria uma desculpa para ficar com ela. Aceitou, mas fez uma exigência.
4.2 Júlio pensou em pagamento, mas era além disto: — Na minha aldeia, se um adulto pede pra aprender algo, tem o dever de ensinar algo.
4.3 Júlio hesitou: — Mas eu não sei nada… Moema replicou com firmeza: — Todo mundo sabe alguma coisa.
4.4 Moema perguntou quais aulas ele recebia no palácio. Júlio respondeu: — História antiga e moderna, Matemática, Esperanto, Filosofia, Estratégia, Etiqueta, Geopolítica, História das casas reais, Musculação, Dança… — O que é mesmo Geopolítica? Gostei do nome — comentou Moema.
4.5 — Geopolítica é o estudo das relações entre países, territórios e populações, e como fatores geográficos, econômicos e políticos influenciam essas relações — explicou Júlio.
4.6 — Pois aí está: Você me ensinará essa Geopolítica! — disse Moema de forma imperativa.
5 A Primeira Aula
5.1 Júlio percebeu que tinha um grande desafio: ensinar algo que, de fato, não sabia; ele nunca prestara atenção em nenhuma aula, mesmo musculação ele só fazia cerca de meia hora por dia.
5.2 Juntou livros e suas parcas notas, preparou-se por uma semana e depois, ainda temeroso, foi ensinar Moema.
5.3 Além do medo, começou nervoso, mostrando mapas, nomes e conceitos. Pouco tempo depois Moema o interrompeu: — Continuo achando isso interessante, mas vamos mais devagar, sou uma plebeia, por sorte alfabetizada, e que trabalha no jardim.
5.4 Júlio inspirou profundamente, concordou e recomeçou, agora com calma; Moema nem sempre entendia o que era explicado, mas estava realmente interessada e não interrompia muito, deixando a aula fluir.
5.5 Diferentemente, a aula de jardinagem foi essencialmente prática. Moema já avisara que era isto que ela conhecia do tema. Moema se segurava para não rir da inabilidade de Júlio com as ferramentas, com as plantas, com os vasos. Quando não conseguia segurar, Júlio não se intimidava — tinha o que importava.
5.6 Logo estabeleceram uma rotina: 1hora de Geopolítica, breve descanso (muitas vezes se deslocando ao jardim ou estufas), 1hora de Jardinagem.
6 Cozinhas
6.1 Um dia, Júlio se dirigiu até a cozinha do refeitório e perguntou ao Chefe: — A comida daqui é bem nutritiva, mas quase não tem sabor; de tempero só sal. Por quê?
6.2 Chefe Chico explicou respeitosamente:
—Sabia que uma hora Vossa Alteza viria aqui. Há um controle rígido de despesas. Garantem que ninguém passe fome, mas temperos são considerados supérfluos. Além disso, se fornecessem temperos, eu não saberia aproveitá-los corretamente. — Entendo — disse o Príncipe.
6.3 Júlio então voltou ao palácio e pediu ao seu tenente: —Leve-me à minha cozinha.
6.4 Na cozinha, o Príncipe pediu ao Chefe João que lhe apresentasse os integrantes da bateria, assim foi feito. Júlio pensou por alguns segundos, depois pediu que a Chefe de Assados e Grelhados, Maria, o acompanhasse até seu gabinete.
6.5 No gabinete Júlio foi direto: — Senhora Maria, tenho um pedido, não é uma ordem. —Gostaria que você fosse trabalhar na Cozinha externa, dos servos. Lá eles não estão acostumados a usar temperos e você será Cochefe, junto com o Chefe Chico. Seu salário passará a ser igual ao do Chefe João. Aceita a proposta?
6.6 Maria pensou: sair da Cozinha do Príncipe seria uma queda de status, o novo salário ajudaria na criação de seus dois filhos e ficou claro que o Príncipe estava olhando com carinho a Cozinha Externa.
6.7 Maria aceitou, mas preocupada com essa história de cochefes pensou: "Não se coloca dois ursos no mesmo saco".
7 Dois ursos no mesmo saco
7.1 Logo pela manhã Júlio acompanhou Maria até o refeitório externo.
7.2 Chamou o Chefe Chico e disse: —Chefe Chico, esta é a Chefe Maria, ela vai trabalhar aqui. —Ela vem aqui para dar sabor, vocês dois serão cochefes deste refeitório. Como serão cochefes, o salário de vocês será igual, igual ao do Chefe João. No orçamento do refeitório estou incluindo um extra para os temperos.
7.3 Chefe Chico percebeu que tinha que aceitar, mas assim que o Príncipe se afastou comentou: —Não se coloca dois ursos no mesmo saco.
7.4 Maria deu uma risadinha e imediatamente se explicou: —Ontem eu pensei exatamente a mesma coisa.
7.5 Esta profecia foi verdadeira: se Chico não dava sabor, Maria, que veio da cozinha principesca, não sabia preparar para tantas pessoas. O atrito entre os dois até foi diminuindo com o tempo, mas nunca acabou — nem quando os dois formaram uma família.
8 De volta ao caramanchão
8.1 Moema notara que nesta semana Júlio estava disperso e nervoso, mas hoje isto estava em nível estratosférico.
8.2 A aula de Geopolítica foi ruim; ele se perdia, trocava nomes de países e datas. Jardinagem no mesmo nível. Moema parou a aula e perguntou: —O que está acontecendo? Qual o problema?
8.3 Júlio respirou fundo, tomou coragem e a levou até o caramanchão no jardim.
8.4 Lá, ainda sem conseguir falar, bebeu água e então disse, em voz baixa: — Quero te pedir uma coisa... mas tenho muito medo... por causa do teu segredo... Não quero te ofender... quero continuar teu amigo... você é minha única amiga...
8.5 Moema piscou quando ele mencionou o segredo, mas já confiava nele e disse: — Peça, no máximo vou negar, nunca quis ter amizade com um nobre ou príncipe e aqui estou.
8.6 — Me inaugure.
8.7 Moema ficou perplexa, não pelo pedido, mas porque Júlio era...
8.8 Depois de um breve momento, ela aceitou, mas deixou claro que não queria, de modo algum, deixar de ser plebeia — ouvira dizer de uma faxineira que inaugurou o filho de um Duque e depois virou Baronesa.
8.9 Moema então assumiu o comando: Consiga um quarto em local discreto em que não se possa ouvir gritos, aquecido, cama razoavelmente macia, numa mesa refeição matinal, sucos... — Vou te inaugurar, mas o processo levará três noites.
9 A inauguração
9.1 Primeira noite
9.1.1 Depois da aula Moema deixou Júlio guardando as ferramentas, dirigiu-se ao bangalô que ele conseguira.
9.1.2 Chegando lá tomou um longo banho quente, mas não relaxou: Será que vou conseguir? Será que meus traumas vão permitir inaugurar Júlio? Ele não tem experiência, mas a minha experiência é pouca e ruim.
9.1.3 Ainda estava remoendo as dúvidas quando Júlio chegou. Conduziu-o ao banheiro e banhou-o, ele banhou-a de novo.
9.1.4 Ela relaxou um pouco, ele por sua vez ficou tenso; mas as carícias comuns ajudaram.
9.1.5 Após o banho foram para a cama ainda acariciando-se, mas Moema resolveu ser rápida: ele estava a ponto de g*z4r, então pegou o m3mbr* dele e em poucos movimentos ele g*z*@ massivamente.
9.1.6 Dormiram, no meio da noite acordaram e comentaram sobre o ocorrido.
9.1.7 Júlio disse: — O banho foi bom, mas pena que tirou teu perfume.
9.1.8 Moema demorou a entender que ele se referia ao cheiro do corpo suado dela.
9.2 A segunda noite
9.2.1 Moema improvisou uma aula de jardinagem em que pouco tocaram na terra.
9.2.2 Quando chegaram no bangalô um t1r*@ a roupa do outro e começaram a se tocar principalmente com a b*k. M*rd1skd4s, l4mb1d4s — ele se chafurdou nos sovacos cabeludos, e com a l1ng@4 fez uma massagem nos pés dela ; ela também pr*v*@ do corpo dele, deixando-o embevecido. No momento que achou adequado ela se dirigiu ao m3mbr* dele e logo ele encheu a b*k dela, ele quis um longo beijo assim provou do próprio s@m*.
9.3 A terceira noite
9.3.1 Começou com uma revisão das noites anteriores: toque e paladar.
9.3.2 Na hora h, Moema chegou a pensar em vir por c1m4 - ela teria mais controle para sair (seus traumas). No fim percebeu que confiava muito em Júlio e que o p4p4i-m4m4e era o melhor para ele.
9.4 Outra inauguração
9.4.1 Depois das três noites, como é comum, Júlio queria mais e mais do que chamou de "brincadeira". Moema, firme, lembrou que ele tinha deveres.
9.4.2 Assim como as aulas, as brincadeiras ganharam uma rotina.
9.4.3 Uma noite, Moema começou a gritar e chorar; Júlio ficou apavorado. Quando voltou ao quase normal, ela explicou que ele, de certa forma, a tinha inaugurado. Com ele, ela até então sempre estivera preocupada para que a brincadeira fosse boa pra ele, mas agora relaxara e, pela primeira vez na vida, brincar foi um pr4z3r.
9.4.4 Depois disto foi a vez de Júlio lembrar Moema que brincar não poderia ser todos os dias.
10 A História de Moema
10.1 Júlio pegou delicadamente a mão de Moema e foram para o caramanchão.
10.2 — Me conte tua História.
10.3 — Mandacaru é terra seca, difícil de viver, o povo canta "Só mandacaru resistiu tanta dor".
10.4 Um dia teve mais uma guerra entre Fontoura e o Serrazul.
10.5 Meus pais soltaram as cabras nos montes, enterraram em potes os cereais.
10.6 As tropas de Fontoura chegaram e requisitaram nossa pouca comida.
10.7 O General, um Duque, me arrastou para a sua tenda. Lá... não foi guerra, foi massacre: Estourou meu kb4ç*. Arrebentou meu c@. Me obrigou a provar seu kr4lh*. E tive que engolir sua p*rr4. Pela manhã, jogou-me n@4 na praça. Antes de sair, pegou a adaga e marcou meu rosto. Riu.
10.8 Confesso: fiquei feliz com a notícia da derrota de Fontoura. Vieram as tropas de Serrazul. Mas não foi muito diferente. Depois, pelos acordos, Mandacaru voltou para Fontoura.
10.9 Com tudo isso, a vida por lá conseguiu piorar.
10.10 Saí pela estrada, comendo calango. Faminta, cheguei em outra vila. Só consegui abrigo na luz vermelha.
10.11 O primeiro cliente foi um Conde. Lambuzou como o Duque, só não me marcou. Outros clientes plebeus vieram, me usaram, alguns me bateram. Uma semana depois fugi, jurando me matar antes de voltar pra lá.
10.12 — Cheguei à capital, um mundo novo. A Torre de Audiências cumpre seus objetivos: impressiona.
10.13 — Procurei trabalho. Cheguei ao Palácio Real, ofereci ser lavadeira, ofereceram o jardim... o resto você já conhece.
10.14 Depois, Moema dormiu profundamente nos braços de Júlio.
11 Mudanças Notadas
11.1 Impressionados com as mudanças no comportamento de Júlio, os professores foram apresentar seu relatório mensal ao Rei Júlio 4º e à Rainha Alice. — Ele participa, faz perguntas pertinentes e demonstra interesse — relatou o professor de Geopolítica. — Arrisca frases em Esperanto e demonstra confiança — acrescentou o professor. —A inda pisa os calos e tropeça nos passos, mas sorri e tenta acompanhar o ritmo — completou a professora de Dança.
11.2 A Rainha sorriu, olhando para o marido: — Pisar nos calos! Sabemos a quem puxou — comentou, com diversão.
11.3 O Rei, conformado, aceitou a alfinetada e voltou à situação: — Isto é muito bom! Mas não acredito em milagres, algo aconteceu e precisamos descobrir o quê. Assim, pediu ao seu tenente que fosse investigar.
12 Atenta
12.1 Júlio acordou às 6 da manhã, Moema saudou-o alegre e comentou: —Que milagre! Você nunca acorda antes das 7 horas.
12.2 —Tenho que ir a Pontiá, mas estarei de volta antes de anoitecer — respondeu Júlio.
12.3 —Fique atenta, esta viagem surgiu de repente, devem estar nos investigando.
12.4 —Ficarei, mas não fizemos nada de errado ou escondido, somos apenas discretos. Júlio beijou Moema e saiu.
12.5 De fato, ao final do lanche da manhã, o tenente do Rei, acompanhado de quatro guardas, surgiu no jardim, dirigiu-se ao grupo de jardineiros e disse: —Serva Moema, venha comigo!
12.6 Não permitiram nem que se trocasse, nem que se limpasse.
12.7 Seguiram imediatamente à Torre de Audiências e lá a deixaram sozinha.
12.8 Enquanto aguardava, Moema, com seu uniforme de trabalho, em sandálias desgastadas e braços, mãos, pernas e pés terrosos, olhou a torre por dentro:
12.9 Dourado por todo o lugar, também muita púrpura; a cobertura ogival de 50 metros de altura era admirável. Havia grandes fogareiros que aqueciam, iluminavam e, principalmente, tornavam a torre ainda mais impressionante.
12.10 Cerca de 10 minutos depois, uma porta se abriu; entrou um lacaio e anunciou: —Suas Reais Majestades: Rei Júlio 4º e Rainha Alice.
12.11 Adentraram os Reis acompanhados de pequena comitiva.
12.12 Não estavam com coroas ou mantos, mas suas roupas de seda eram bem vistosas. Sentaram nos respectivos tronos, dispensaram todos os acompanhantes e ficaram a sós com Moema.
13 Interrogatório
13.1 O Rei Júlio 4º começou o interrogatório: —Quem é você?
13.2 A jovem não se intimidou e respondeu: — Moema é meu nome, cidadã deste Reino de Fontoura, serva, trabalhadora dos jardins de Vossas Majestades e exprostituta!
13.3 Pelo relatório do tenente, os Reis já sabiam disto, mas ainda assim ficaram espantados com a prontidão e crueza da declaração final.
13.4 O Rei continuou: —O que queres de nosso filho, o Príncipe Júlio? Por que se aproximou dele?
13.5 — Não quero nada, bem sei a distância que há entre nós e várias vezes lembrei-o disto. —Não me aproximei do Príncipe, eu sempre procuro distância da nobreza e da realeza; quando ele me conheceu, pensei que fosse um mordomo do palácio.
13.6 — O que fizestes com ele? É evidente que ele mudou e mudou para melhor.
13.7 Moema contou das aulas de jardinagem e geopolítica.
13.8 A Rainha Alice perguntou: —Você o inaugurou?
14 Almoço
14.1 Não houve tempo para Moema responder, uma porta se abriu, entrou o Príncipe Júlio:
14.2 —Sim, me inaugurou!
14.3 E, em vez de massacrá-la com perguntas, deveriam agradecê-la:
14.4 —Vocês me ensinaram os meus deveres, e ela completa a lição, leva-me a cumprir com eles.
14.5 Depois disto o Rei falou:
14.6 —Diante do exposto esta conversa está encerrada.
14.7 —Vamos almoçar — e tua amiga está convidada.
14.8 Moema finalmente pôde se lavar; quanto ao vestuário, não havia o que fazer.
14.9 Foram servidas sopas, algumas frutas e beberam água.
14.10 O silêncio imperou; Júlio e Moema pelos olhares se diziam: “Você se saiu bem, estou grata por vir e na hora certa, vamos aguardar pelo que vem agora”.
14.11 Terminado o almoço o Rei e o Príncipe foram conversar no escritório.
14.12 Quanto a Moema seguiu a Rainha Alice até os aposentos reais.
15 O presente
15.1 Conforto e luxo foi o que viu Moema, era tanta novidade que não reparou em nada em particular até que a Rainha acenou para uma aia.
15.2 Esta se dirigiu até uma mesinha sobre a qual viam-se duas caixas de vidro com areia amarela.
15.3 Quando trouxe uma das caixas até as duas, a Rainha disse: —Este é um presente para você, meio quilo de ouro, pela inauguração...
15.4 Ao ouvir isto Moema interrompeu a Rainha falando muito incomodada: —Não quero, não sou prostituta!
15.5 A Rainha respondeu: —Meu filho encontrou uma joia raríssima que não quer o presente. Não é uma dádiva ofertada a uma prostituta; é uma tradição desta família:
15.6 A quem inaugura um Príncipe ou um Rei, seja baronesa, seja princesa e, agora, seja serva merece o presente. A outra caixa que ficou sobre a mesa é a que eu ganhei. Use a tua como desejar, já compraram palacetes, vestidos etc., eu ainda tenho a minha intacta porque já era Rainha.
16 No escritório
16.1 Os Júlios sentaram-se em poltronas, o Rei perguntou: —O que você pensa em fazer com ela? O que você pensa em fazer?
16.2 — Confesso que já cogitei levemente casar-me com ela. —Mas a única vez que comecei a falar deste caminho, ela, peremptoriamente, descartou isto. Seja lembrando meus deveres. Seja ressaltando a ojeriza que tem à nobreza e até a realeza.
16.3 E a conversa foi prosseguindo. Uma hora depois foram ao encontro das duas.
16.4 Moema aceitara trocar de roupa, estava usando um uniforme de aia, um modelo não mais usado. Ambas bebiam chá, Moema agora sentada à mesa com a Rainha Alice.
16.5 Juntaram-se a elas. O Príncipe Júlio sentou bem junto de Moema e segurou sua mão.
16.6 — Senhorita Moema — começou o Rei — depois de conversar com meu filho tenho uma proposta, ouça, avalie, decida e saiba que tudo está aberto para negociação.
16.7 — Reitero o que já dissemos: sua presença junto a ele tem sido uma bênção e queremos que continue.
16.8 — Passe a estudar com o Príncipe não só Geopolítica e Jardinagem, mas todas as matérias e outras que desejar.
16.9 — Venha morar no Residencial dos Servos do Palácio — eu queria sugerir o Palácio dos Manacás, mas meu filho que te conhece sugeriu esta opção.
16.10 — Aceite ser Concubina do Príncipe e já me comprometo: estarás dispensada de ser elevada à viscondessa.
17 Holofotes
17.1 O PRÍNCIPE APÁTICO TEM UMA CONCUBINA!
17.2 Esse foi o tititi na corte e na imprensa.
17.3 Vários servos deram relatos em sigilo; Chefe Chico e Chefe Maria fizeram boca de siri.
17.4 É uma plebeia! É uma serva! Vinda da terra de bandoleiros! Foi estuprada pelo 14º Duque de Áquila! Uma rameira! Por isto o Rei a deixou morando com os servos! Por isto o Rei não a fez Viscondessa! …
17.5 Moema que sempre fugira da nobreza e dos holofotes agora era o centro das atenções. Júlio nem precisou orientá-la a não dar corda ao que era dito e publicado, fosse verdade ou mentira.
18 Mais aulas
18.1 Como os reis esperavam, o aprendizado de Júlio melhorou ainda mais; exceto dança.
18.2 Por falar em aulas de dança, a professora ficou encantada pois finalmente introduziu danças plebeias no currículo.
18.3 Esperanto, como é comum, em pouco tempo já tinha domínio próximo ao da língua materna.
18.4 Uma aula que Moema pediu para si foi Botânica. Quando começou a trabalhar no jardim, isto era apenas o ganha-pão — poderia ser lavadeira —, com o tempo foi gostando, com Júlio uma tempestade, e agora queria se aprofundar.
19 A Escola
19.1 Júlio e Moema foram visitar Mandacaru. Na volta Moema pediu para o Professor de Esperanto vir conversar com ela:
19.2 — Profesoro Ludoviko, mi volas konstrui grandan kaj bonegan lernejon en Mandacaru, ĝi uniĝos kortegan scion kun praktika sperto. Mi deziras ke vi estu la estro, ĉu vi akceptas?
19.3 Além do Professor, Moema falava com engenheiros, arquitetos e outros profissionais.
19.4 O Professor já não tinha paz: reuniões com a Concubina, com estes profissionais, com professores de aulas cortesãs e professores de Mandacaru. Ficava cansado, mas não abandonaria este projeto sedutor.
19.5 No dia da abertura da escola o prédio impressionou mais do que muitos palácios, não pelo luxo, mas pela beleza e praticidade: projetado para garantir conforto ambiental no clima desértico de Mandacaru.
19.6 Depois a Rainha Alice chamou-a para conversar: — Você pagou isto com o teu presente? — Sim! E como sobrou vou construir outra escola, desta vez junto ao lixão da Capital.
19.7 A Rainha se levantou, brevemente. Quando voltou, disse: — Só duas escolas, por quê? Faça mais!
19.8 E entregou para Moema a sua caixa de vidro.
20 Caramanchão de novo
20.1 O caramanchão, para os dois, não era apenas um lugar de revelações, mas o lugar de revelações.
20.2 — Fontoura e Serrazul estão completando negociações, será anunciado amanhã. Meu irmão, Príncipe Bruno, irá até Safira, capital de Serrazul, para acompanhar até aqui a Princesa Njeri com quem deverei casar para selar o acordo.
20.3 Moema, como sempre, respondeu direto: — Cumpra teu dever, não me envergonhe.
21 A Princesa Njeri
21.1 Um mês depois, no cais principal do porto de Fontoura, a atmosfera era de solenidade contida. Marinheiros, soldados reais e a corte aglomeravam-se. Moema estava lá, procurando esconder-se entre as demais concubinas e amantes - não queria afrontar a noiva e nem parecer que não concordava com o casamento.
21.2 O Rei Júlio 4º e a Rainha Alice, trajando vestes de estado, mas sem as pesadas coroas, observavam o imponente navio de Serrazul atracar.
21.3 A passarela foi estendida. Primeiro desceu o Príncipe Bruno, com seu ar marcial e familiar, fazendo uma breve reverência aos pais. Seguiu-o a figura linda e graciosa da Princesa Njeri, envolta em véus leves das cores de sua casa, que desceu com olhar sereno e passos calculados.
21.4 O Rei adiantou-se, com um passo calmo e autoritário, e proferiu em Esperanto, sua voz clara ecoando no silêncio do cais: — En nomo de la popolo kaj krono de Fontoura, ni bonvenigas Vian Reĝan Moŝton, Princinon Njeri de Serrazul. Via alveno marku la definitivan finon de disonanco inter niaj nacioj kaj la komencon de longa epoko de paco kaj komuna prospero. Ĉi tiu lando nun estas ankaŭ via.
21.5 A Princesa Njeri inclinou a cabeça com precisão protocolar e respondeu na mesma língua, sua voz melodiosa carregada da suave entonação de Serrazul: —Viaj Ekscelencoj, mi dankas vin pro via varma bonvenigo kaj afablaj vortoj. Mi akceptas kun humileco kaj espero la destinon, kiu unuigas niajn hejmojn. Ĉi tiu kuniĝo estu la fundamento, sur kiu ni konstruos pli fortan kaj pli prosperan estontecon por ĉiuj niaj infanoj.
21.6 Njeri e o Príncipe passaram a semana se conhecendo e percorrendo o Reino. Ao final do dia Júlio ia ao encontro da concubina, contar o que fizeram, comentar sobre o que poderiam fazer pelo bem do casamento etc.
21.7 Uma noite, no bangalô, ouviram um barulho, saíram pra ver o que era e só viram um vulto correndo.
22 A entrevista
22.1 Na manhã seguinte, como era tradição, houve uma entrevista coletiva para apresentar oficialmente o futuro casal real. Jornalistas do reino e reinos vizinhos e cronistas da corte lotavam a Torre de Audiências.
22.2 Em sua declaração inicial, Júlio foi protocolar mas ressaltou a beleza e, ainda mais, a inteligência da Princesa, falando em tom formal mas sincero.
22.3 As palavras iniciais da Princesa também foram protocolares. Mas continuou, surpreendendo a todos: — Durante esta semana comecei a conhecer este Reino, a conhecer o Príncipe. Ele sempre muito respeitoso, procurou ocultar, todos sabem que ele tem uma concubina ; mas ocorre é que o coração do Príncipe pertence a essa reles plebeia: Moema, a Concubina. — Eu fui criada para ser a número 1 e não posso aceitar ser a número 2 do número 1, mas se os reinos concordarem serei a número 1 do número 2.
22.4 Diante do choque geral, Moema e Bruno foram obrigados a participar da entrevista. O Rei, pálido mas contido, acenou para que se aproximassem.
22.5 Bruno foi breve mas deixou claro que pelo bem dos Reinos aceitaria casar com Njeri.
22.6 Ninguém ali antes nunca vira Moema tão nervosa. Tremendo visivelmente e gaguejando, falou de sua relação com Júlio, de que não aceitava ser nobre...
22.7 Depois de todas estas declarações não houve entrevista: era caos entre os jornalistas e caos na corte.
23 Uma análise da entrevista
23.1 Hoje, passados tantos anos, fica mais evidente a inteligência da Princesa Njeri naquela entrevista:
23.2 Ao denunciar publicamente Moema como "reles plebeia", Njeri executou uma jogada calculista — queimou Júlio perante a diplomacia internacional, sabendo que nenhuma princesa de sangue real aceitaria ser claramente colocada em segundo plano. Esta humilhação pública levou ao casamento de Júlio e Moema.
23.3 Mas sua verdadeira genialidade estava na segunda parte: ao oferecer-se para ser "a número 1 do número 2", Njeri não apenas manteve sua dignidade real como abriu caminho para sua realização pessoal. Aquelas palavras, que pareciam um absurdo protocolar, na verdade eram um código — ela e Bruno já estavam secretamente apaixonados desde a viagem de volta de Serrazul.
24 Negociações
24.1 No Reino de Fontoura rapidamente perceberam que para Júlio nunca haveria casamento dinástico — com secreta alegria o Rei e a Rainha aceitaram o casamento com Moema — esta por sua vez, só não aceitou ser nobre, princesa ou, no futuro, Rainha — seu título seria "Esposa do Príncipe".
24.2 Quanto à união de Bruno com Njeri isto foi acordado — mas o impasse foram as novas fronteiras — o próprio Rei Tendai 7º de Serrazul veio negociar.
24.3 Enquanto isto os quatro jovens passeavam por Fontoura, foram até Mandacaru e Njeri conheceu a escola e o povo de lá — nos dois reinos ninguém entendia a proximidade entre as duas.
24.4 As negociações continuavam, um dia os três Príncipes irromperam na sala de reuniões, Njeri tomou a palavra: — Há centenas de anos nossos reinos guerreiam por estas terras, casamentos não deram solução definitiva: Por que não criar um reino tampão?
24.5 Os dois reis perguntaram em coro: — E quem vai garantir que esse reino não vai se aliar a um lado?
24.6 Príncipe Júlio e Príncipe Bruno responderam: "Um reino com dois Copríncipes: um indicado por Fontoura e outro por Serrazul."
24.7 E assim as negociações prosseguiram e surgiu o Coprincipado de Verdavojo — verde por ser o resultado de amarelo e azul.
24.8 Dias depois num jantar mais íntimo entre as duas famílias — felicitaram os Príncipes pela original solução — os três príncipes agradeceram mas revelaram que a ideia inicial fora de Moema.
24.9 O Rei Tendai 7º ficou admirado e até com inveja por não poder contar com um assessor tão astuto.
24.10 Ainda durante o jantar — o Rei Tendai disse que pretendia indicar Njeri para Coprincesa e o Rei Júlio completou que tivera ideia semelhante: Bruno seria a Copríncipe. O Príncipe Bruno tomou a palavra, agradeceu ao Pai e explicou que especialmente neste primeiro governo não seria bom que Verdavojo tivesse copríncipes com relação pessoal tão próxima e que se contentaria em ser "o número 1 da metade."
25 Os casamentos
25.1 Dois meses depois realizaram-se, na Torre de Audiências, os dois casamentos. Reis, nobres e jornalistas do mundo inteiro para testemunhar tal assombro.
25.2 Moema e Njeri usavam vestidos parecidos — produzidos pelas costureiras e rendeiras de Mandacaru — um modelo típico da região mas em tecidos finos — a maior diferença entre as duas: Moema estava toda de branco, inclusive as flores rendadas e Njeri tinha flores coloridas mais de acordo com a tradição desértica.
25.3 Antes de iniciar o cortejo Njeri pediu ao pai: — em vez de me conduzir, conduza Moema. O professor Ludoviko que ia conduzir Moema conduzirá a mim.
25.4 O Rei espantado perguntou: — Você tem certeza disso? — Tenho, confie.
25.5 A cerimônia seguiu tranquila.
26 A burla
26.1 Ocorreram diversos bailes para celebrar — o primeiro foi na Embaixada de Serrazul.
26.2 Quando chegaram os recém-casados o arauto anunciou: — Suas Majestades Príncipe Bruno e Princesa Njeri. — Suas Majestades Príncipe Júlio e Princesa Moema.
26.3 Moema ficou incomodada — mas isto não abalou a felicidade dela neste momento.
26.4 O Rei Tendai tomou a palavra e em vez de saudar os casais disse: — Moema, querida, de última hora Njeri te enganou com um presente: É tradição de Serrazul, muito antiga e há muito não usada: o Rei só conduz ao casamento suas filhas e quando faz com outras esta desde então é Princesa de Serrazul. — Mas já mandei providenciar decreto e esta foi a primeira e última vez que fostes anunciada como Princesa.
27 Júlio 5º
27.1 Todos cantavam o conto de fadas de Júlio e Moema, mas uma semana depois veio a fatalidade: um aneurisma cerebral fulminante levou o Rei.
27.2 Em Fontoura a transição é imediata e as cerimônias ocorrem com brevidade.
27.3 O funeral foi na semana seguinte. Pela primeira vez os Reis de Serrazul não mandaram representantes: Tendai e Dandara compareceram pessoalmente ao funeral.
27.4 Mais trinta dias e ocorreu a coroação. Os mestres do protocolo tiveram muito trabalho: a situação de Moema, bem estabelecida no acordo pré-nupcial, forçava-os a estabelecer novas tradições.
27.5 Júlio 5º foi coroado e entronizado. Moema acompanhou-o, mas não foi coroada e, em lugar do trono, havia uma poltrona agradável para ela sentar ao lado do Rei, seu esposo.
27.6 Só depois Júlio 5º pôde abolir a cerimônia do beija-pés: os nobres em fila, conforme sua posição, do menor ao maior, beijam simbolicamente os pés do Rei e da Rainha; isto representava a submissão ao novo Rei. A Esposa do Rei ficou ao seu lado, mas ninguém beijava seus pés.
27.7 Njeri acompanhou Bruno nesta cerimônia, mas como era Princesa de outro reino, estava dispensada. Contudo, após Bruno completar a sua submissão, Njeri dirigiu-se somente a Moema, dizendo: "Permita-me, é necessário".
27.8 A Esposa do Rei consentiu, recebeu o beija-pés e imediatamente solicitou que colocassem duas cadeiras ao lado de sua poltrona. Convidou Bruno a sentar-se e ordenou à Princesa que se sentasse e ficasse parada. Então, Moema realizou com Njeri o beija-pés.
27.9 As duas se levantaram e se abraçaram longamente - até ficou cômico pela diferença de altura, mas todos aplaudiram.
28 A retirada
28.1 Após a coroação a Rainha-mãe anunciou que iria se retirar para o Palácio do Jequitibá e deixar o espaço do Palácio Real e o espaço público para o jovem casal.
28.2 Moema pediu, até angustiada, que ela continuasse. Seja porque o Palácio Real é enorme, seja porque ela não sabia e nem queria essas funções públicas.
28.3 Alice respondeu: Não se subestime, teu beija-pés em Njeri foi um ato genial. O ato de Njeri foi inédito: uma princesa se submeteu a uma plebeia e você, numa resposta instintiva, libertou-a ao se submeter a ela. Você leva jeito pra coisa!
28.4 Mas entendo que não queira assumir tanto este papel, por teu pedido, por enquanto, vou fazer boa parte da representação complementar. Mas como você, vou querer algo em troca: Quero te ajudar na criação das escolas, começando pela do Lixão.
29 O jubileu
29.1 Vinte e cinco anos depois muita coisa aconteceu no continente: o modelo de escolas mandacaru foi adotado por muitos países. Nobres pleiteavam inscrever seus filhos nelas: perceberam que dali é que viria a direção política, tecnológica e artística do país. No entorno das escolas foram criadas faculdades e as duas primeiras geraram universidades.
29.2 Os preparos para os festejos do Jubileu foram muito cuidados: uma Feira Continental, bailes e outros rapapés.
29.3 O Rei Júlio 5º mantinha constantes reuniões com todas as lideranças da Câmara do Povo para que fosse não uma celebração de triunfo mas um convite à trabalharem juntos, seja em Fontoura, seja entre os diversos reinos e repúblicas.
29.4 O Príncipe Herdeiro, Eumeu, participava destas reuniões. Mas Moema não, o que até gerou boatos.
29.5 Na abertura dos festejos, perante a audiência, do povo, dos nobres e de alta representação de todos os países do continente e de outras terras; Júlio 5º discursou (resumido):
29.6 Senhoras e Senhores, há três anos meu filho, o Príncipe Eumeu, veio me questionar. O incrível que era o mesmo questionamento que eu fiz vinte e cinco anos atrás, mas diante da súbita morte de meu pai, Júlio 4º, este evento fez com que eu deixasse de lado estes pensamentos.
29.7 Mas qual era este questionamento? (de Pai e Filho)
29.8 Ao estudar a História das Casas dinásticas e a História das nações é perceptível que todos têm altos e baixos: Muitos reinados/governos medíocres (70%) alguns bons e até ótimos (10%), e um número um pouco maior de reinados/governos ruins ou péssimos (20%).
29.9 O diferencial que é que muitas vezes um Rei ruim ou péssimo arrasta o país por anos, podendo levar à ruína.
29.10 Repúblicas não estão livres de governos ruins, mas geralmente duram menos e conseguem ter um pouco menos de governos ruins.
29.11 Ao nos debruçarmos sobre esta questão Eumeu apresentou uma possível solução. Entrei em contato com as lideranças da Câmara do Povo e hoje, neste dia de festa, anuncio para vocês:
29.12 Fontoura será uma República!
29.13 Em seis meses haverá uma eleição geral para uma Câmara do Povo Constituinte.
29.14 E meu último ato (ou de meu filho) como Rei será assinar a aceitação e submissão a esta nova constituição.
29.15 Logo após a instalação da Câmara do Povo Constituinte, Eumeu entrou na Faculdade de Enfermagem, pois toda a família real queria influenciar o mínimo (ou nada) na redação da nova carta magna e trabalhar com saúde era a real vocação deste Príncipe.
29.16 Cento e cinquenta anos após este último jubileu os reinados foram sumindo: vários seguindo o exemplo, outros depois de reinados desastrosos. Como Júlio anunciara, as Repúblicas não eram garantia de não haver governos ruins, mas uma fórmula para abreviar o mal. Ironicamente a única monarquia ainda existente é o Coprincipado de Verdavojo, seja porque não é hereditária, seja porque "dois ursos estão colocados no mesmo cesto" e é difícil que os dois copríncipes ao mesmo tempo sejam ruins e quando são um neutraliza o outro.