2025-10-19

Akiko

1 O Príncipe Knut se apaixonou pela filha do ferreiro, Akiko. No início deixaram como travessura juvenil, quando viu que era mais do que isto o Rei Tamoio mandou sequestrá-la e exilou-a em Natsibara.
 
2 Uma semana depois o Príncipe sumiu, foram até Natsibara e só souberam que no dia seguinte depois que foi abandonada lá ela partira.


3 Após um ano de buscas intensas e secretas acharam os dois na Ilhaestado de Hagônia, Akiko comandava uma ferragem, Knut era seu auxiliar e tinham um filho de seis meses.

4 O sequestro foi praticado novamente, desta vez contra os três.

5 Perante o Rei e o Alto Conselho alguém sugeriu:
Isso é culpa do mau exemplo do Reino de Fontoura.
Matemos Akiko e está resolvido de uma vez.

6 Ao ouvir isto Knut deu a seguinte resposta: 
Quereis matar Inês?

O Rei e dois conselheiros arregalaram os olhos, um conselheiro disse que não era serio, que matassem Akiko.
A vingança por Castro
parecerá estória casta.

7 O Rei cedeu, Akiko se casaria com Knut e a criança seria reconhecida como Principe Legítimo e portanto herdeiro.
 
———
 
8 Uma das tradições era o Chá Ducal da futura Princesa: A noiva era anfitriã das Duquesas do Reino.

9 Contudo as Duquesas não estavam nem um pouco conformadas com a situação e resolveram humilhar Akiko: Não iriam ao chá, mas enviariam suas governantas.

10 Em algum momento perceberam que seria necessário uma testemunha, assim escalaram a jovem Duquesa de Xingú, a mais recente Duquesa do grupo, para ir ao chá.

11 Akiko logo percebeu o que estavam aprontando, mas sentiu-se confortável com gente como ela, logo todas não só comiam como brincavam alegremente de cabra cega, inclusive Xingú.

12 Este é um evento de mulheres, assim quando o Rei entrou foi uma surpresa e uma quebra do protocolo.

13 — Akiko, minha cara, vejo que teu Chá de Duquesas não está como o esperado.
— Vou castigar as Duquesas de modo que nunca vão esquecer:
— Estou criando uma nova categoria de nobres: Duquesa com Grandeza e Honra. Na precedência seguem imediatamente após a Família Real. A transmissão é feminina (Duque só na falta de mulher) e para a filha mais nova.

14 Após o Rei Tamoio foi apresentado a cada uma das governantas e ele formalizou o título, geralmente o local de nascimento. Quando chegou a vez da Duquesa de Xingú esta disse:
— Não mereço esta honra, de última hora decidiriam que alguém teria que testemunhar a vergonha de Akiko e eu fui a escolhida.

15 Tamoio conversou rapidamente com Akiko e fez uma pergunta:
— Você estava se divertindo com as governantas ou me enganei?
— Pois aceite o título e mais do que isto seja monitora da Akiko para ajudá-la a fugir das armadilhas da corte.
— Aceito. Mas ouso fazer um pedido:
Carla, minha governanta, até horas atrás estava se preparando para vir aqui, ela merece o titulo.
— De acordo e é mais uma prova de tuas qualidades.

16 — Há, caras Duquesas com Grandeza e Honra: o castigo das Duquesas não vai ficar só nisto, vou lhes garantir uma pensão tal que vocês poderão contratar toda a equipe de empregados de suas patroas e gostaria que o fizessem.

2025-10-17

In vino veritas

1 Bruno arrastou Julio consigo, não para um "castelo", mas bataclã simples — era um capricho do irmão mais novo.


2  — Bruninho! Finalmente de volta! — grasnaram as meninas e a Madame.
— Demorou, mas volto! E hoje trago meu irmão, Julio!

3 Jogado no picadeiro, Julio de olhos arregalados mal conseguia enxergar, seja pela pouca luz, seja porque o cheiro de fumaça e perfume barato obscurecia todos o sentidos.

4 Julio procurou uma mesa em canto mais escuro, para esconder o asco que esta sentindo. Enquanto isto Bruno já estava abraçado com duas enquanto pedia vinho para ele e Julio. Então Bruno gritou:
— Quite, você já é bem rodada e bonita, cuide bem do meu irmão!

5 Quite tinha 18 anos, da mesma altura de Julio, pele pardoescuro, cabelos negros e oleosos amarrados de qualquer jeito, olhos verdes grandes. Seu corpo magro de adolescente era envolvido por um vestido azul-claro, barato e curto demais.

6 Julio estava terminando seu segundo copo de vinho quando Quite se aproximou 
— Um rapaz tão bonito e tão triste — sussurrou ela, deslizando uma mão pela sua perna.
— O trabalho de Quite é aquecer esse coração.

7 Júlio recuou, o estômago às voltas. Ela insistiu, trazendo-lhe outro copo — Bebe, meu amor. O vinho afoga as mágoas.
Ele bebeu, obedientemente, na esperança de que ela estivesse certa. Em vez disso, o mundo inclinou-se perigosamente.

8 Como Bruno disse Quite mesmo tão nova já era rodada e percebeu o mal estar de Julio. Ela, com uma força que Julio não sabe de onde veio, carregou-o até um quarto.

9 —

O trabalho de Quite é cuidar de ti.
Sentaram-se na beira da cama. Julio recostou a própria cabeça na cabeça de Quite. Num repente tudo que estava no estômago de Julio, vinho e comida veio para fora, Quite nem teve tempo para nada e ficou encharcada de Julio.

10 — O pior já passou, descansa.
Deitou-o, colocou uma toalha úmida na cabeça de Julio. Depois cuidou de si mesma, sabia que como estava iria piorar a situação de Julio.

11 Tirou a roupa, lavou-a como pode, tomou um banho e pediu outro vestido igualmente barato e curto demais.

12 Julio viu seu corpo nu, arranhado, machucado e com marcas roxas.
Ela percebeu mas agiu como se ele não estivesse lá, não procurou excitá-lo.

13 Quando se recuperou disse:
— Bruno vai me trucidar de pancada ou debochando.

14 — Em primeiro lugar ele é teu irmão.
— Em segundo lugar vou te contar um segredo:
No salão ele é o folgazão que tu vistes: grita, bebe, abraça, beija, passa a mão na bunda...

15 No quarto ele nos usa, mas com cuidado: não quer machucar a carne, já parou ao perceber dor, pagou tratamento dentário, fica feliz quando gozamos (e ele sabe quando é fingido)... gostamos dele não só porque paga bem, mas porque ele é ele.

16 — Já estou melhor, eu vou indo, obrigado por tudo; qual teu nome?
— Quite.
— Não, qual o teu nome?
— Quitéria.
— Quitéria, amanhã te pago.
— Não te preocupes, não transamos, não cobrarei.
— Eu preciso, e não é pelo sexo que não houve, mas pelo cuidado na ressaca.

17 Ao sair Julio ouve o irmão:
— Não foi desta vez, irmão, quem sabe na próxima.

18 No dia seguinte apareceu o tenente de Julio com um alforje cheio de moedas.

2025-10-11

As visitas

1 — Moema!
— Sim?
—  Prove este patê, está bom?
— Tá, tá bom...
— Tem certeza?
— Eles vêm nos visitar, não vão julgar a comida, não te preocupes.
—  Mas eles são chefes...

2  — Eles vão trazer os netos...
— Ótimo! Assim eu treino para quando Eumeu nos der os nossos.
— Julio, não comece. Eumeu tem o tempo dele, assim como tivemos o nosso. Tenho certeza de que não gostavas quando Alice te pressionava nestes temas.


3 Chegaram e trouxeram três dos netos.
— Tio Julio!!!
— Criançada: vamos pular carniça?
— E depois podemos dar água pras plantas?

4 — Maria, Chico que alegria!
Vamos lá pro caramanchão, beber suco e conversar. Como vocês sabem Julio vai entreter as crianças.
. . .
5 — Simpática a casa de vocês!
— Inicialmente pensamos em ir para o Residencial dos Servos, mas concluímos que por melhores que fossem os vizinhos, nós terminaríamos por perturbar aquela comunidade, assim a residência do zelador geral virou uma ótima opção para nós.

6 — Moema, o que vocês acharam da Constituição Republicana?
— Teve momentos que ficamos apreensivos, mais de uma vez Julio me lembrou que era fundamental não tomar partido.
Mas no fim ficou interessante: surpreendentemente a Câmara do Povo agora é proporcional e o distrito eleitoral é a nação; o Câmara dos Nobres virou Câmara das Províncias.

7 Maria — Outra surpresa foi a limitação do tempo de exercício de mantato: ninguém pode exercer mandato por mais que 12 anos em qualquer uma das casas.
Chico: — Não ficou aquela maluquice do Partido Solar, de apenas um mandato, mas ninguém fica eternamente.
Maria: — Uma mandato de cada vez o congresso não teria experiência, memória...

8 Moema: — Mas não estamos aqui pra falar de política.
Maria: — Mais ou menos... Jurema, a afilhada de vocês, pretende se candidatar à Câmara do Povo. Ela sabe que será vinculada a vocês imediatamente...
Moema: — Ela é maior, vacinada...
Chico: — Ela não pretende usar esta relação, mas sabe que vai ocorrer, por isto não veio conosco e ela pede que se for eleita, que vocês se manifestem quando vocês acharem que ela tá fazendo bobagem.
Moema: — Digam à ela que eu e o Julio agradecemos a compreensão antecipada e que esperamos voltar a nos encontrar sem pressões.

9 Chico: — Falando em Julio, como ele está na aposentadoria?
— Está complicado, ainda temos muita força e tempo de vida.
Eu tenho as escolas, semana que vem vou à República Baobá e Kjrozia conversar sobre a criação de escolas mandacaru por lá. Mas o Julio está parado e nervoso.

10 Maria: — Agora vendo ele com as crianças cuidando das plantas pensei: E se ele passasse a criar jardins?
Moema: — Por que não pensei nisto? Ele já conhece mais de jardinagem do que eu e isto é menos sensível politicamente do que as escolas.

2025-10-06

Mas o que é isto?

1 Acordei cansada. Estariam os outros servos brincando comigo? Ou seria verdade? Ele é o Príncipe? É ele que quer brincar comigo? Já não me agradava a aproximação de um mordomo do palácio, de um nobre é muito pior.
— Tenho que enxotar ele! Vou fazer ele correr quilômetros.

2 — Lá vem o tratante! Primeiro vou confirmar que ele é quem dizem ele ser.
— Confirmou e tem a pachola de vir com jogo de palavras.
— Vou largar minha bomba!
Mas quero um lugar mais tranquilo, meus colegas não precisam saber meu segredo.
Há! Tem o caramanchão, serve bem pra isso.

3 — Vejo susto, vejo raiva, vejo nojo...
Deu certo ele fugiu, e dei sorte: não me bateu.

4 — Mas o que é isto? Minhas pernas amolecem, meu corpo não se aguenta e começo a chorar profusamente.
 
5  — Mas o que é isto? Ele voltou! Vai me bater? Se agachou, pegou minhas mãos trêmulas, me abraçou, falou algo—  dentro de meu choro não entendi —, e ele chorou, nós dois choramos, um alimentando o choro do outro.


Nós comungamos o choro, nunca tinha visto isto; mesmo minha mãe chorava pelo que aconteceu comigo, nunca chorou comigo e esse nobre, este Príncipe veio comungar.

6 Era o início da noite quando conseguimos caminhar, um não dizia uma palavra para o outro (e precisava?), o refeitório já tinha encerrado. O Chefe Chico, que veio desculpar-se com o Príncipe que já não havia comida, notou nossos olhos, nossas faces.
Julio disse que aceitaríamos o que tivesse, o Chefe raspou as panelas, comemos em silêncio.

7 Após a refeição, Julio queria me acompanhar até o alojamento, tive de convencê-lo que eu estava bem e, principalmente, que precisava ficar sozinha e que ele também precisava deste tipo de solidão.

Em destaque

O convite

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