2025-10-17

In vino veritas

1 Bruno arrastou Julio consigo, não para um "castelo", mas bataclã simples — era um capricho do irmão mais novo.


2  — Bruninho! Finalmente de volta! — grasnaram as meninas e a Madame.
— Demorou, mas volto! E hoje trago meu irmão, Julio!

3 Jogado no picadeiro, Julio de olhos arregalados mal conseguia enxergar, seja pela pouca luz, seja porque o cheiro de fumaça e perfume barato obscurecia todos o sentidos.

4 Julio procurou uma mesa em canto mais escuro, para esconder o asco que esta sentindo. Enquanto isto Bruno já estava abraçado com duas enquanto pedia vinho para ele e Julio. Então Bruno gritou:
— Quite, você já é bem rodada e bonita, cuide bem do meu irmão!

5 Quite tinha 18 anos, da mesma altura de Julio, pele pardoescuro, cabelos negros e oleosos amarrados de qualquer jeito, olhos verdes grandes. Seu corpo magro de adolescente era envolvido por um vestido azul-claro, barato e curto demais.

6 Julio estava terminando seu segundo copo de vinho quando Quite se aproximou 
— Um rapaz tão bonito e tão triste — sussurrou ela, deslizando uma mão pela sua perna.
— O trabalho de Quite é aquecer esse coração.

7 Júlio recuou, o estômago às voltas. Ela insistiu, trazendo-lhe outro copo — Bebe, meu amor. O vinho afoga as mágoas.
Ele bebeu, obedientemente, na esperança de que ela estivesse certa. Em vez disso, o mundo inclinou-se perigosamente.

8 Como Bruno disse Quite mesmo tão nova já era rodada e percebeu o mal estar de Julio. Ela, com uma força que Julio não sabe de onde veio, carregou-o até um quarto.

9 —

O trabalho de Quite é cuidar de ti.
Sentaram-se na beira da cama. Julio recostou a própria cabeça na cabeça de Quite. Num repente tudo que estava no estômago de Julio, vinho e comida veio para fora, Quite nem teve tempo para nada e ficou encharcada de Julio.

10 — O pior já passou, descansa.
Deitou-o, colocou uma toalha úmida na cabeça de Julio. Depois cuidou de si mesma, sabia que como estava iria piorar a situação de Julio.

11 Tirou a roupa, lavou-a como pode, tomou um banho e pediu outro vestido igualmente barato e curto demais.

12 Julio viu seu corpo nu, arranhado, machucado e com marcas roxas.
Ela percebeu mas agiu como se ele não estivesse lá, não procurou excitá-lo.

13 Quando se recuperou disse:
— Bruno vai me trucidar de pancada ou debochando.

14 — Em primeiro lugar ele é teu irmão.
— Em segundo lugar vou te contar um segredo:
No salão ele é o folgazão que tu vistes: grita, bebe, abraça, beija, passa a mão na bunda...

15 No quarto ele nos usa, mas com cuidado: não quer machucar a carne, já parou ao perceber dor, pagou tratamento dentário, fica feliz quando gozamos (e ele sabe quando é fingido)... gostamos dele não só porque paga bem, mas porque ele é ele.

16 — Já estou melhor, eu vou indo, obrigado por tudo; qual teu nome?
— Quite.
— Não, qual o teu nome?
— Quitéria.
— Quitéria, amanhã te pago.
— Não te preocupes, não transamos, não cobrarei.
— Eu preciso, e não é pelo sexo que não houve, mas pelo cuidado na ressaca.

17 Ao sair Julio ouve o irmão:
— Não foi desta vez, irmão, quem sabe na próxima.

18 No dia seguinte apareceu o tenente de Julio com um alforje cheio de moedas.

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