2026-02-22

O convite

1 O Rei Júlio IV convidou Moema para conversar. 
No escritório foi direto:

2 — Estou com um problema e acho que você poderá me ajudar.

3 — Tenho que indicar um Copríncipe,
Bruno era minha opção, não só por ser meu filho, mas por ser um dos que concebeu esta proposta de reino tampão.
Exatamente por conhecer muito bem a proposta ele justificadamente abriu mão do cargo.

4 — Você, mesmo que aceitasse um título; você vai ser Esposa do Príncipe Herdeiro, futura Esposa do Rei e mãe dos príncipes. Goste você ou não suas obrigações serão com Fontoura.

5 Assim peço teu conselho: 
Quem você sugere para ser Copríncipe de Verdavojo?

6 Moema pensou por tempo razoável e respondeu:
— Professor Ludoviko.

7 — O professor de Esperanto?

— Diretor da Escola, construiu-a. Viveu anos nesta corte, agora está lá em Mandacaru que fará parte de Verdavojo e já entende muito da mentalidade deste povo.

8 — A escola não precisa dele?

— Precisa. Mas ele fez tão bom trabalho que outros darão continuidade. Além disto estará por perto.

9 O Rei ficou quieto por um momento.
— Ele aceitaria?

10 — Não sei.
— Fale com ele.
---

11 Ludoviko estava entre corrigir exercícios e resolver atritos entre professores quando Moema chegou.

12 Quando ele deu uma parada, Moema perguntou:
— Se alguém lhe oferecesse ser Copríncipe de Verdavojo, ao lado de Njeri, o que responderia?

13 — Que sou professor.
— E eu era jardineira.
Ele ficou quieto.

14 — Nunca governei sequer uma vila.
De Educação eu entendo.

— O senhor administra uma das maiores escolas do continente.
E não estará sozinho: terá a Coprincesa.

— Você conhece a corte de Fontoura. Agora conhece o povo de Mandacaru. Sabe como a região pensa.
Não sei de ninguém mais preparado para construir algo no meio do caminho entre os dois reinos.

16 — Você pretende sugerir meu nome?

17 — Não, perguntaram minha opinião e sugeri você.
---

18 Três dias depois o Professor Ludoviko foi convocado ao Palácio Real.

2026-01-03

Uma estória clichê

Translator

1 Lucas tinha vinte anos e nunca havia trabalhado um dia na vida. Filho de empresário, morava com a mãe numa casa grande em condomínio fechado. Cursava Administração numa faculdade particular cara, dirigia um carro importado que ganhou no aniversário de dezoito anos. Um mauricinho — mimado, sem noção do mundo real, vivendo numa bolha de privilégio e pelo próprio prazer. 

 2 Tinha namorada, a Larissa, filha de amigos da família. Patricinha como ele, loira, sempre impecável, cheirando a perfume caro. Transavam no apartamento que os pais dela tinham comprado, sempre tudo certinho, programado. Ela não era a primeira — Larissa era a namorada que a mãe aprovava. 

3 Bianca tinha vinte anos e dois filhos de pais diferentes. A Maria, de quatro anos, e o Pedro, de dois. Tinha engravidado aos dezesseis do primeiro namorado — foi acidente. Ele foi morto numa operação da polícia. Começou a trabalhar como empregada doméstica aos dezessete, depois de largar a escola no primeiro ano do ensino médio. Então conheceu outro cara, engravidou aos dezoito, o namorado sumiu antes do Pedro nascer. 

4 Fazia o que podia pra sustentar os filhos que ficavam com a mãe dela durante o dia. 

5 Ela começou a trabalhar na casa da mãe de Lucas há dois meses. Dona Marlene era divorciada e exigente, mas pagava razoável e tratava bem — melhor que muitas patroas. 

6 Lucas mal notava a presença dela no começo. Bianca era apenas mais uma empregada, alguém que limpava a casa, lavava roupa, preparava almoço. Ele passava por ela sem dizer bom dia, deixava toalha molhada no chão, copos sujos espalhados pela casa — não por maldade, mas por ser sem noção —. Às vezes Larissa estava lá, e elas mal trocavam olhares (mundos completamente diferentes). 

7 Foi numa tarde de calor intenso que Lucas realmente a viu pela primeira vez. Larissa tinha viajado com a família pro fim de semana. Bianca estava limpando o terraço, suada depois de horas sob o sol forte. Usava um uniforme simples, o cabelo estava preso num rabo de cavalo molhado de transpiração. 

 8 Lucas saiu pra área da piscina e a viu de costas, esfregando o chão. E pela primeira vez, realmente reparou — ela não era invisível. Era uma mulher. Da idade dele. Mulata, pele brilhando de suor. Real, trabalhando pesado, suando. 

 9 — Você quer água? — ele perguntou, se aproximando. 

10 Bianca virou, surpresa. Era a primeira vez que ele falava direito com ela. 

 11 — Quero, obrigada — ela disse, aceitando o copo. Sorriu — um sorriso simpático, natural, sem artifício. 

12 — Você tem a minha idade, né? — ele perguntou. 

13 — Vinte anos — ela disse, ainda sorrindo. 

14 Nos dias seguintes Lucas começou a reparar mais. Como ela trabalhava pesado, como era simpática mesmo cansada. Tudo nela era diferente de Larissa, sempre perfumada, maquiada. 

 15 Lucas começou a puxar conversa — queria fuder a empregada mulata. Perguntas simples que foram ficando mais pessoais. Bianca era reservada mas aos poucos se abria. E ela também começou a reparar nele — não como patrão, mas como homem. Ele era bonito, atencioso quando queria, diferente dos caras da quebrada que ela conhecia, um mauricinho um pouco diferente dos mauricinhos. 

16 — Por que você fica me olhando? — ela perguntou um dia, direta. 

17 — Porque você me interessa — ele admitiu. 

18 — Lucas, você tem namorada — ela disse. — Vi ela aqui várias vezes. 

 19 — Eu sei — ele disse. — Mas não consigo parar de pensar em você. 

20 — Isso é errado — ela disse, mas o coração acelerou. — Eu preciso desse emprego. 

21 — Só conversar — ele disse. — Prometo. 

22 Mas não foi só conversar. O tesão cresceu. Olhares que duravam mais, proximidade que não era acidental. Lucas cheio de vontade, aos poucos passou a vê-la como pessoa, não só a empregada gostosa. Bianca sabia que era burrice, que ia acabar mal, mas havia algo no jeito como ele falava que mexeu com ela. E ela, que há anos não se sentia desejada de verdade, começou a achar Lucas interessante não só pelo corpo bonito ou pela atenção — mas pelo jeito como ele parecia genuinamente curioso sobre ela, sobre sua vida. Foi se iludindo, achando que talvez esse mauricinho fosse diferente. 

 23 Aconteceu numa tarde que a mãe de Lucas viajou a trabalho. Bianca estava terminando de limpar quando Lucas entrou na cozinha. 

24 — Bianca — ele disse. 

25 Ela sabia o que ia acontecer. Podia ter parado. Devia ter parado. Mas não parou. 

26 Eles se beijaram. Foi intenso, diferente de tudo que ambos já tinham sentido. Mas quando as mãos dele começaram a ir mais longe, ela parou. 

27 — Não aqui — ela disse. — Não assim, correndo. Sua mãe pode voltar. 

 28 — Ela só volta sexta-feira, mas você tem razão: aqui não, vou te esperar no meu quarto. 

29 — Amanhã — ela concordou. 

30 No dia seguinte, quando Bianca chegou Lucas tinha arrumado o quarto. Nada exagerado — tinha tirado a roupa suja do chão, arrumado a cama. Pequenos gestos que mostravam que ele tinha pensado nela, que queria que ela ficasse confortável ali. 

31 — Você arrumou o quarto — ela disse. 

32 — Arrumei — ele admitiu, sem jeito. — Achei que... sei lá, que você merecia. 

33 Eles transaram ali, na cama dele. Foi diferente, mais devagar, mais real. Depois ficaram deitados, suados, sem falar nada por um tempo. 

34 Lucas terminou com Larissa. E ele e Bianca continuaram se encontrando. Escondido, sempre quando a mãe dele não estava. Três meses de encontros furtivos, sexo intenso, uma conexão que crescia apesar de tudo ser errado. 

35 Lucas estava obcecado. Pela forma como ela era completamente diferente de qualquer mulher que ele já tinha conhecido; mas principalmente pelo ser humano vivo, muito mais vivo do que ele. Bianca sabia que estava se iludindo, que mauricinho usa empregada, mas não conseguia parar. 

36 Até que ela atrasou. Fez o teste. Positivo. 

37 Bianca chorou a noite inteira antes de contar pra ele. 

38 — Eu tô grávida — ela disse no dia seguinte. 

39 Lucas sentiu o chão sumir. 

40 — Tem certeza? 

41 — Fiz três testes. Todos positivos. 

42 — Porra — ele passou a mão no cabelo. 

43 — Eu sei — ela disse. — Eu fui burra... 

44 Ele interrompeu: — A gente foi burro. Três meses transando nem sempre com camisinha... 

45 — O que você vai fazer? — ele perguntou, tentando processar. 

46 — Não sei ainda — ela disse, seca. Não ia chorar na frente dele. — Mas você não precisa se preocupar. Eu me viro. 

47 — Como assim? 

48 — Lucas, seus pais vão me pagar pra sumir. Pra fazer aborto ou ir pra longe e ter o bebê em outro lugar. É o que gente rica faz, né? Eu sei como funciona. 

49 — Não — ele disse. — Eu não quero isso. 

50 — Você não quer o quê? — ela perguntou, amarga. — Pagar o aborto ou me mandar embora? 

51 — Nenhum dos dois — ele disse. — Eu... eu quero ficar. Com você. Com o bebê.  

52 Bianca riu sem humor. 

53 — Você tá louco? Você tem vinte anos, nunca trabalhou, vive de mesada. 

54 — Então eu vou trabalhar — ele disse. 

55 — Ah é? — ela cruzou os braços. — E seus pais? Seu pai vai aceitar o filho dele com a empregada? 

56 Aí ele teve medo mas rapidamente disse: — Não sei — ele admitiu. — Mas eu vou assumir. Bianca, isso não é só sexo... Eu realmente estou apaixonado por você.

57 — Você se apaixonou pela fantasia — ela disse. — Pela empregada exótica. Quando a realidade bater — dois filhos pequenos, apartamento de pobre, conta apertada — você vai cair fora. 

58 — Não vou — ele disse. 

59 — Todo mundo diz isso — ela respondeu, pensando nos pais dos filhos dela. — Até ir embora. 

60 A conversa com a mãe foi pior do que Lucas imaginou. 

61 — Você engravidou a Bianca?! — dona Marlene gritou. — Você é burro ou irresponsável? 

62 — Os dois — Lucas admitiu. — Mas vou assumir. 

63 — Assumir? — ela riu, amarga. — Você nunca trabalhou! Não sabe fazer nada! 

64 — Então me ensina. Pede pro pai me colocar pra trabalhar na empresa dele. 

65 — E a faculdade? 

66 — Vou trancar — Lucas disse. — Por enquanto. Mas volto. Depois. 

67 — Pois peça você. Duvido que ele vá ajudar. Aposto que nisto eu e teu pai concordamos: não apoiar essa loucura. 

68 Lucas ligou pro pai. A conversa foi quase tão dura quanto com a mãe. Mas o pai aceitou. 

69 — Você quer trabalhar? Vou te colocar no almoxarifado da fábrica — o pai disse pelo telefone. — Salário mínimo. Sem mordomia. 

70 Então dona Marlene chamou Bianca na sala. A conversa não foi dura, foi cruel. 

71 — Você tá demitida — dona Marlene disse, a voz cortante. — Mas vou pagar três meses pra não dizerem que sou má. 

72 — Eu entendo, senhora — Bianca disse, engolindo o choro. 

73 — Entende? — Marlene deu uma risada amarga. — Você sabia exatamente o que estava fazendo, não sabia? Menina esperta. Dois filhos já, sem pai nenhum por perto, aí vem trabalhar aqui e de repente tá grávida do meu filho. Que coincidência, né? 

74 — Não foi assim... — Bianca disse, a voz tremendo. 

 75 — Ah não? — Marlene se inclinou pra frente. — Então me explica. Como é que uma empregada doméstica de vinte anos, com dois filhos, sem estudo, sem nada, acaba grávida do patrão rico? Você acha que eu sou idiota? 

 76 — Eu não planejei isso — Bianca insistiu, lágrimas começando a cair. 

77 — Claro que não — Marlene zombou. — Nenhuma de vocês planeja. Mas sempre acontece, não é? E agora meu filho idiota acha que vai brincar de casinha com você. Ele não tem noção do que é criar filho, de pagar conta. Você tem. Você sabe exatamente o que está fazendo. 

78 — Eu vou ter esse bebê — Bianca disse, a voz firme apesar das lágrimas. — Com ou sem ele. Não preciso da sua família. Eu já criei dois sozinha, crio mais um. 

79 — Ah, vai mesmo? — Marlene riu, cruel. — E quando meu filho cansar? Porque ele vai cansar, pode ter certeza. Ele não aguenta a realidade. Aí você fica com três filhos de pais diferentes, mas agora com uma boa pensão. Parabéns. Que futuro brilhante. 

80 Bianca não respondeu. Apenas pegou a bolsa e saiu, as palavras de Marlene ecoando na cabeça. 

81 Lucas vendeu o carro — aquele carro importado que era seu orgulho — e usou o dinheiro pra alugar um apartamento pequeno num bairro popular e ter uma reserva. 

82 Bianca e a mãe dela, dona Conceição, moravam num barraco pequeno na favela. Quando Lucas alugou o apartamento, a quase sogra foi junto e ia ajudar com as crianças. 

 83 Maria e Pedro estranharam tudo — apartamento novo, um cara estranho morando com eles. 

84 — Quem é você? — Maria perguntou, desconfiada. 

 85 — Sou o Lucas. Vou morar com vocês agora. 

86 — Por quê? 

87 — Porque eu gosto da sua mãe. E ela vai ter um bebê. Nosso bebê. Vamos ser uma família, vamos cuidar de todo mundo. 

88 — O outro papai foi embora — ela disse, os olhos já aprendendo a não confiar. — Você vai embora também? 

89 — Não vou, prometo: Eu fico. 

90 Dona Conceição ficou olhando, esperando pra ver até quando o mauricinho ia aguentar a realidade. 

91 Os meses foram brutais. Lucas acordava às cinco da manhã, pegava ônibus lotado (o dinheiro do carro vendido era reserva de emergência, não pra torrar), trabalhava oito horas no chão da fábrica, voltava pra casa destruído. Bianca grávida, enjoada, cuidando de duas crianças pequenas. Dona Conceição ajudava mas também tinha seus problemas de saúde. 

92 Seis meses de gravidez. Bianca sentada no sofá, os pés inchados no colo de Lucas. 

93 — Você se arrepende? — ela perguntou. 

94 — Do quê? 

95 — De tudo. De ter me comido, de eu ter engravidado, de ter largado sua vida. 

96 — Eu me arrependo de ter sido irresponsável — ele disse. — De não ter usado camisinha, de não ter pensado. Mas não me arrependo de você e de nossa família. 

97 — No começo — ele continuou, hesitante — era só tesão. Tara pela empregada. Pelo jeito diferente. Eu queria te fuder e pronto. Mas quando comecei a conversar com você, a te conhecer de verdade... você deixou de ser só a empregada gostosa. Virou a Bianca. A mulher que me fez ver que eu não sabia nada da vida. A mulher por quem eu me apaixonei.

98 Bianca tinha lágrimas nos olhos. 

99 — Você inteira — ele disse. — Real, trabalhadora, espirituosa. Minha gata borralheira. 

100 — Gata borralheira? Que merda de elogio é esse? Se eu sou a gata borralheira, você é quem? 

101 — Sou o sapo que a gata beijou e ele está sofrendo pra virar gente — Lucas disse, e os dois riram. 

102 Aos sete meses de gravidez, numa manhã de sexta-feira, Bianca sentiu uma dor forte. Diferente das outras. Chamou Lucas no trabalho, dona Conceição levou ela pro hospital. 

103 Quando Lucas chegou, o médico já tinha dado a notícia. O bebê tinha morrido. Aborto espontâneo. Essas coisas acontecem, disseram. Ninguém tem culpa. 

 104 Bianca ficou três dias no hospital. Lucas não saiu de perto. Ela chorava sem parar, ele chorava junto. Tinham escolhido nome, comprado roupinha com o pouco dinheiro que tinham. Ana. A menina ia se chamar Ana. 

105 — A culpa é minha — Bianca disse, a voz quebrada. — Trabalhei demais, me esforcei demais... 

106 — Não é — Lucas disse, segurando a mão dela. — O médico disse que não é. Essas coisas acontecem. 

107 — Mas eu queria tanto essa menina — ela chorou. — Nossa menina. 

108 — Eu também — ele disse, as lágrimas descendo. 

 109 Voltaram pra casa sem bebê. O apartamento tinha o berço montado, as roupinhas lavadas. Dona Conceição guardou tudo, sem dizer nada. Maria e Pedro perceberam que algo estava errado, mas eram pequenos demais pra entender. 

110 Os meses seguintes foram os piores. Bianca entrou em depressão. Lucas tentava ajudar mas não sabia como. Trabalhava, voltava, ela estava na cama. Dona Conceição cuidava das crianças, da casa, de tudo. 

111 — Eu não consigo — Bianca disse uma noite. — Não consigo levantar, não consigo nada. 

 112 — Eu sei — Lucas disse. — Mas eu tô aqui. A gente passa por isso junto. 

113 Lucas convenceu Bianca a ir num psiquiatra do SUS. Demorou, mas aos poucos ela foi melhorando. Demorou mas foi aprendendo a viver com a dor. 

114 Quando a notícia do aborto chegou a Marlene, ela ficou radiante. Mandou pintar o quarto de Lucas, comprou um som novo, reformou a casa. Era a celebração da volta do filho à vida normal. 

115 Marcos, no fundo, esperava que Lucas fosse embora. Sem bebê, sem razão pra ficar, pensava. Dona Conceição também. E até Bianca, nos momentos mais escuros da depressão, esperava que ele caísse fora — porque seria mais fácil não ter esperança nenhuma do que ter e perder de novo. 

116 Mas Lucas ficou. Não falou nada grandioso, não fez promessas. Só ficou. Trabalhando na fábrica, voltando pro apartamento, cuidando de Bianca, ajudando com Maria e Pedro. Como se não houvesse outro lugar onde ele pudesse estar. 

117 — Você ainda quer ficar comigo? — ela perguntou, seis meses depois do aborto. — Depois de tudo isso? 

118 — Bianca — ele disse, pegando o rosto dela. — Eu te amo. Não é porque a gente perdeu a Ana que eu vou te perder também.

119 Ela abraçou ele e chorou. Mas dessa vez foi diferente. Foi um choro de quem estava começando a se curar. 

120 Um ano e meio depois do aborto, no escritório da fábrica, Marcos fez uma proposta. 

121 — Volta pra faculdade — o pai disse. — De noite. Eu pago. 

122 — Mas não vou fazer Administração — Lucas disse. — Odeio aquela merda.

123 — Então faz o que você gosta — o pai disse, surpreendendo ele. 

124 — Gastronomia — Lucas disse. — Eu comecei a fazer comida em casa, Bianca e dona Conceição me ensinaram e... gostei. 

125 — Gastronomia? — o pai fez careta, mas reconheceu que era a cara do novo Lucas. — Tá bom. Eu pago. Mas você continua trabalhando. 

126 E Lucas voltou a estudar. Gastronomia à noite, trabalho na cozinha da fábrica de dia. Exausto sempre, mas com propósito. 

127 Bianca também. Ela terminou o ensino médio pelo EJA, à noite, enquanto Lucas cuidava das crianças. Depois entrou em Enfermagem numa faculdade pública. 

128 Era correria. Um dia Bianca comentou enquanto preparava café: 

129 — Nós dois estudando à noite, dona Conceição cuidando das crianças. Virou uma loucura. 

130 — Mas tá dando certo — Lucas disse. 

131 Quatro anos depois, Lucas estava se formando em Gastronomia. Bianca estava no terceiro ano de Enfermagem. Maria tinha oito, Pedro seis. Dona Conceição ainda morava com eles, agora num apartamento um pouco maior que eles tinham conseguido financiar. 

132 O pai de Lucas foi na formatura. A mãe não apareceu. 

133 — Você virou homem — o pai disse depois. — De verdade. 

134 — Demorei, sofri — Lucas admitiu. — Mas cheguei lá, também graças à minha família. E você ajudou. 


135 Fim de expediente. Lucas chegou do restaurante, Bianca voltou do estágio no hospital. Caíram no sofá, destruídos. 

136 — A gente tá fodido de cansaço — ela disse. 

137 — Todo dia — ele concordou. 

138 — A gente fodeu tudo no começo — ela disse. — Irresponsáveis, burros. 

139 — Fodemos — ele concordou. — Mas consertamos. Juntos. Você, eu, as crianças, até a minha cobra, digo minha sogra. 

140 Bianca deu um tapa leve no braço dele, rindo. 

141 — Respeita minha mãe. Se tua sogra é uma cobra, o que é a minha sogra? 

142 — A tua sogra? A tua sogra é uma Medusa que quase me petrificou num mauricinho. 

143 — Te amo — ela disse. 

144 — Te amo — ele respondeu. 

145 E era verdade. Dois jovens de vinte que foderam tudo e tiveram que crescer na porrada. Ele, o mauricinho que virou trabalhador e cozinheiro. Ela, a mãe solo que arriscou confiar de novo. 

146 Dois filhos (agora Lucas era legalmente o pai dos dois), apartamento financiado, contas sempre apertadas. Mas com estudo, trabalho, propósito. Real, honesto, construído no suor. 

147 E absolutamente deles.

2026-01-01

Fantasmas

1 Quando Quite chegou a Kjrozia o país estava em plena guerra civil. Bombas caíam todas as noites. Refugiados enchiam as ruas. Soldados de ambos os lados saqueavam o que restava.

2 Era o lugar perfeito para empreender, empreender como ela sabia. Comprou uma casa grande perto do porto. Depois, abriu as portas. Placa simples: "Casa da Tia K".  Não precisou anunciar o que era. Em tempo de guerra, todos sabem reconhecer um bordel.

3 Quite estabeleceu regras rígidas:
3.1 Primeira regra: Ninguém com menos de catorze anos. Nunca. Por mais ouro que oferecessem.
3.2 Segunda regra: Violência resultava em banimento permanente do cliente. Ela mantinha dois seguranças —  ex-soldados grandes — que executavam a regra sem hesitação.
3.3 Terceira regra: Metade dos ganhos das meninas era delas. A outra metade pagava casa, comida, segurança, não vendia acessórios (roupas etc.).

4 Para os padrões de um castelo e em tempo de guerra, era casa decente. Comida todos os dias. Camas limpas. Proteção contra a pior violência.

5 Quite não se iludia. Sabia o que ela era. Sabia que explorava. Mas dizia a si mesma: era melhor que a rua. Melhor que a fome. Melhor que os soldados que não pagavam e não tinham regras. À noite, sozinha, às vezes se perguntava se estava apenas repetindo o ciclo. Mas de manhã abria as portas novamente.

6 Guerra é bom lugar para o negócio que ela conhecia.

7 A guerra civil terminou com a derrota da monarquia e, principalmente, da aristocracia.

8 E com a paz, vieram as leis.

9 Três meses após o Acordo, bateram à porta da Casa da Tia K às seis da manhã.

10  Polícia. Muita polícia.

11 Prenderam Quite. Revistaram a casa. Confiscaram tudo.

12 — Exploração sexual de menores — o delegado disse. — Você vai presa.

13 — Eu nunca aceitei crianças! — Quite protestou. — Catorze era o mínimo. E tratava bem...

14 — Catorze anos é menor — ele cortou. — Lei é clara. Você explorou menores.

15 No tribunal, o promotor foi implacável. Lista de meninas. Idades.

16 — A acusada alega que "tratava bem" — o promotor disse com desprezo. — Como se houvesse forma boa de explorar crianças.

17 Quite pediu para falar. O juiz, surpreso, permitiu.

18 — Fui prostituída aos doze anos. Antes da menarca. Sei exatamente o que é. Por isso nunca aceitei crianças ou pré-adolescentes. Catorze anos era o mínimo. E mesmo assim, na casa só houve um desvirginamento: a menina escondeu a virgindade — o cliente até se assustou com o sangue.

19 Depois vieram testemunhas. Policiais que tinham patrulhado o bairro. Algumas das próprias vítimas. Todos falaram sobre a forma de administrar de Quite: as regras, a proteção, a comida, os ganhos acima de outros puteiros.

20 Condenação: dez anos de trabalhos forçados, reduzidos à metade, graças aos testemunhos de policiais e até de suas vítimas sobre sua cafetinagem atípica.

21 Trabalhos forçados significava reconstrução. A guerra tinha destruído metade da nação.  Quite foi designada como auxiliar de pedreiro. Carregava tijolos, misturava argamassa, limpava ferramentas. Trabalho duro. Das seis da manhã às seis da tarde. Sol escaldante. Mãos que sangravam no início, depois calejaram. Mas Quite não reclamava. Trabalhava em silêncio. Cabeça baixa. Fazendo o que mandavam.

22 — Pelo menos — ela pensava — não estou morta. E daqui a cinco anos serei livre.

23 No quinto ano, última semana de condenação, novo engenheiro assumiu a obra.

24 — Engenheiro Aquino — ele se apresentou à equipe. — Vamos terminar esta escola.

25 Moço. Trinta e poucos anos. Magro, não atlético. Falava pouco. Mas conhecia o trabalho.

26 E tratava os condenados com respeito. Chamava pelo nome, não por número. Agradecia quando faziam bom trabalho. Nunca gritava.

27 Quite estava misturando argamassa quando ele se aproximou pela primeira vez.

28 — Você é... — ele consultou uma lista — Quitéria?

29 — Quite. Todos me chamam de Quite.

30 — Quite — ele repetiu. — Última semana de condenação.

31 — Sim, senhor.

32 Ele olhou o trabalho dela. Argamassa na consistência certa. Ferramentas limpas e organizadas.

33 — Você trabalha bem.

34 — Obrigada, senhor.

35 Ele ficou ali por um momento, como se quisesse dizer algo mais. Depois balançou a cabeça e se afastou.  Quite o observou ir embora. Havia algo na forma como ele tratava todos — com dignidade, sem julgamento — que a intrigava.

36 Último dia de condenação. Quite com o rosto sujo, limpava as ferramentas pela última vez quando o Engenheiro Aquino se aproximou.

37 — Quite. Posso falar com você?

38 — Claro, senhor.

39 — Amanhã você está livre.

40 — Sim.

41 — Tem planos? Lugar para ficar?

42 — Não, senhor. Vou..., vou procurar algo.

43 — Tenho uma proposta. Preciso de auxiliar. Alguém que conheça o trabalho, seja confiável. Salário justo, moradia inclusa.

44 Quite o olhou com surpresa.

45 — O senhor... sabe por que eu fui presa?

46 — Sei. Li seu arquivo.

47 — E mesmo assim...

48 — Você cumpriu sua pena. Cinco anos. Trabalhou bem todos os dias. Isso me diz mais que o crime.

49 Ele estendeu a mão.

50 — Então? Aceita?

51 Quite olhou para a mão estendida. Primeira vez em cinco anos que alguém oferecia algo sem dar uma ordem.

52 Quite tentou limpar o rosto e a mão antes de responder:

53 — Aceito.

54 Os primeiros meses foram estritamente profissionais. Quite trabalhava, Aquino supervisionava. Ela aprendeu rápido — cálculos simples, leitura de plantas, técnicas de construção.

55 Aquino era chefe justo. Explicava quando ela errava. Pagava pontualmente. E nunca, nunca fazia perguntas sobre o passado. Até que um dia, dois meses depois, almoçando na obra, ele disse:

56 — Posso fazer uma pergunta pessoal?

57 Quite tensionou.

58 — Pode.

59 — Por que Kjrozia? Durante a guerra. Por que veio para cá?

60 Quite pensou na resposta.

61 — Porque guerra é bom lugar para o negócio que eu conhecia.

62 Ele concordou, sem julgamento.

63 — Honesto.

64 Quite replicou:

65 — Eu não chamaria de honesto.

66 — Honesto, teu posicionamento.

67 Ela olhou para ele.

68 — E você? Por que Kjrozia? Por que não ficou em Fontoura?

69 Foi a vez dele tensionar.

70 — Queria desaparecer de quem meu pai tinha sido.

71 — Seu pai?

72 — Era General. Cometeu... crimes. Crimes terríveis. E eu carrego o rosto dele.

73 — Por isto você usa barba...

74 Ele assentiu.

75 Silêncio.

76 — Então — Quite disse devagar — nós dois viemos fugindo.

77 — Ou recomeçando — ele corrigiu. — Depende de como olhamos.

78 Levou mais um mês para o primeiro convite.

79 — Quite — ele disse, nervoso. — Gostaria de jantar comigo? Não na obra. Um restaurante.

80 — Como... um encontro?

81 — Sim. Se você quiser.

82  Quite pensou. Três meses trabalhando com ele. Este homem —  quieto, gentil, que nunca pressionou, nunca julgou — a convidava para jantar. Ele sabe que fui puta. Sabe que fui cafetina. E ainda assim...

83 — Quero.

84  O jantar foi desajeitado. Ambos nervosos. Conversas sobre trabalho, depois silêncios longos. Mas no fim, caminhando de volta, ele pegou sua mão.

85 — Podemos fazer de novo? Outro jantar?

86 — Podemos.

87 O primeiro selinho veio no final do segundo jantar.

88 No terceiro jantar, ele pediu ela em casamento e já trouxe a aliança de noivado.

89 Quite pisou no freio. Queria conhecê-lo melhor. Dois meses depois, se casaram.

90 Casamento simples. Juiz de paz. Duas testemunhas da obra. Sem festa.

91 Mas quando o juiz disse "podem se beijar", Quite chorou, pela primeira vez chorou de felicidade.

92  Compraram uma casa era pequena mas confortável e com um bom jardim. Quite ficou preocupada em como pagar, mas ele garantiu que tinha uma boa herança (brincou que ela dera golpe do baú).

93 Três filhos criados, dois já casados. Quite tinha padaria no mercado. Aquino era engenheiro-chefe da reconstrução.

94 Vida boa. Tranquila.

95  Todo mundo em Kjrozia sabia quem era Aquino: o filho do Duque monstro de Fontoura.

96 A cada cinco anos aproximadamente apareciam jornalistas de Fontoura para noticiar como ele estava. Já tinham até publicado que ele se casara com uma ex-cafetina.

97 As filhas cresceram ouvindo sussurros, lendo manchetes antigas. Sabiam dos fantasmas dos pais. E amavam os pais mesmo assim.

98 Em Kjrozia poucos os julgavam. O povo tinha visto tanta violência, tanta destruição, entendia recomeços. E via, todos os dias, o trabalho honesto de Aquino, a padaria generosa de Quite.

99 Até a carta chegar. Aquino a leu três vezes antes de falar.

100 — Quite. Preciso te contar uma coisa.

101 — Delegação de Fontoura vem. Para discutir projeto de escola.

102 — E quem lidera a delegação é... Moema Fontoura. A Esposa do ex-rei.

103 — A vítima de teu pai — ela disse baixo.

104 — Uma delas, a mais famosa — Aquino disse.

105 Aquino sentou pesadamente.

106 — Vou ter que trabalhar com ela. O governo já designou. Eu sou o engenheiro-chefe.

107 — Você não é seu pai — Quite disse firmemente.

108 — Eu sei. Mas o rosto... a voz... Por um segundo, ela vai ver ele. E eu... — ele passou a mão pelo rosto — não sei se consigo aguentar ver o ódio nos olhos dela.

109 — Você já provou mil vezes quem você é. Para mim. Para nossos filhos. Para esta República inteira. Vai provar para ela também.

110 — E se eu não conseguir?

111 — Vai conseguir. Porque você não desiste. Nunca desistiu.

112 Três dias depois, Quite leu o jornal durante café da manhã. Deixou a xícara cair. Quebrou no chão.

113 — Quite? — Aquino se levantou, preocupado. — O que foi?

114 Ela apontou para o jornal. Mãos tremendo.

115 Aquino leu a manchete: "Delegação de Fontoura Chega na Próxima Semana". O texto explicava que Moema Fontoura lideraria discussões sobre implementação de escolas mandacaru em Kjrozia, e que viria acompanhada do marido, o ex-rei Júlio Fontoura.

116 — Quite? Por que isso te assusta?

117 — Eu o conheço — ela sussurrou.

118 — Conhece o ex-rei?

119 — Conheci. Há... há vinte e sete anos. Antes de vir para cá.

120 Aquino sentou lentamente.

121 — Como?

122 — Antes do bordel aqui. Eu trabalhava em Fontoura. Em... lugar ...

123 — Uma noite, ele apareceu. O irmão tinha levado. Príncipe jovem, nervoso. Bebeu para se acalmar, mas passou mal e eu cuidei dele.

124 — E?

125 — No dia seguinte ele mandou ouro. Muito ouro. Foi com esse ouro que vim para cá. Que abri a casa durante a guerra.

126 Ela abriu os olhos, lágrimas escorrendo.

127 — Ele vai me reconhecer. Vai lembrar de onde me conhece. E todos vão saber os detalhes que os jornalistas nunca descobriram... Aquino segurou suas mãos.

128 — Quite. Escuta. Júlio Fontoura foi príncipe. Passou a vida sendo treinado em etiqueta, em protocolo. Ele não vai expor ninguém sem razão.

129 — Mas se ele lembrar...

130 — Se lembrar, vai ser discreto. E além disso — ele apertou suas mãos — eu já sei. Sempre soube. Do arquivo, lembra?

131 — Mas você não sabia detalhes. Não sabia que foi ele especificamente...

132 — E isso muda algo? Você cuidou de um jovem doente. Ele pagou generosamente. Você usou o dinheiro para recomeçar. Onde está a vergonha nisso?

133 Quite começou a chorar.

134 — A vergonha está no que eu era. No que eu fazia.

135 — No que você fez para sobreviver. Você foi sequestrada, venderam tua virgindade... chegando aqui você fez o que sabia fazer — ele corrigiu. — E que você deixou para trás há vinte e sete anos.

136 — E se ele contar mesmo assim? Na frente de todos?

137 — Ele se casou com uma meretriz, que nunca escondeu isto. Ele, de todas as pessoas, não vai te julgar.

138 — Você tem certeza? Ela mal pode ser chamada de meretriz, uma semana... já eu... cheguei à madame...

139 — Não tenho certeza de nada. Mas sei que não vamos nos esconder. Enfrentamos juntos.

140 Sentaram as três filhas e os esposos na sala.

141 — Vocês já sabem da delegação que vem — Aquino começou.

142 — Sabemos — a mais velha disse. — E sabemos quem é Moema Fontoura.

143 — Há algo mais — Quite continuou. — Algo que os jornalistas nunca descobriram.

144 E contou. O bordel em Fontoura. O príncipe. O ouro. Como tudo começou.

145 — Então o ouro que abriu a casa aqui... — a filha do meio começou.

146 — Veio dele — Quite completou. — E ele pode me reconhecer. Pode contar.

147 A filha mais nova, a adolescente, falou:

148 — Mãe. A gente cresceu ouvindo os jornalistas. A gente sabe de tudo. Ou quase tudo. Mais esse detalhe... não muda nada.

149  O esposo da segunda filha disse: —Meus pais implicaram muito com o namoro, agora só faltam beijar os pés de vocês, de você minha sogra.  

150 A mais velha se levantou, abraçou a mãe.
 — A gente não tem vergonha de vocês. A gente tem orgulho. De quem vocês são. Do que construíram.

151 — Mesmo que ele conte? — Quite perguntou, voz embargada.

152 — Mesmo que conte — todos disseram juntos.


Em destaque

O convite

...