2 Era o lugar perfeito para empreender, empreender como ela sabia. Comprou uma casa grande perto do porto. Depois, abriu as portas. Placa simples: "Casa da Tia K". Não precisou anunciar o que era. Em tempo de guerra, todos sabem reconhecer um bordel.
3 Quite estabeleceu regras rígidas:
3.1 Primeira regra: Ninguém com menos de catorze anos. Nunca. Por mais ouro que oferecessem.
3.2
Segunda regra: Violência resultava em banimento permanente do cliente.
Ela mantinha dois seguranças — ex-soldados grandes — que executavam a
regra sem hesitação.
3.3 Terceira regra: Metade dos ganhos das
meninas era delas. A outra metade pagava casa, comida, segurança, não
vendia acessórios (roupas etc.).
4 Para os padrões de um castelo e em tempo de guerra, era casa decente. Comida todos os dias. Camas limpas. Proteção contra a pior violência.
5 Quite não se iludia. Sabia o que ela era. Sabia que explorava. Mas dizia a si mesma: era melhor que a rua. Melhor que a fome. Melhor que os soldados que não pagavam e não tinham regras. À noite, sozinha, às vezes se perguntava se estava apenas repetindo o ciclo. Mas de manhã abria as portas novamente.
6 Guerra é bom lugar para o negócio que ela conhecia.
7 A guerra civil terminou com a derrota da monarquia e, principalmente, da aristocracia.8 E com a paz, vieram as leis.
9 Três meses após o Acordo, bateram à porta da Casa da Tia K às seis da manhã.
10 Polícia. Muita polícia.
11 Prenderam Quite. Revistaram a casa. Confiscaram tudo.
12 — Exploração sexual de menores — o delegado disse. — Você vai presa.
13 — Eu nunca aceitei crianças! — Quite protestou. — Catorze era o mínimo. E tratava bem...
14 — Catorze anos é menor — ele cortou. — Lei é clara. Você explorou menores.
15 No tribunal, o promotor foi implacável. Lista de meninas. Idades.
16 — A acusada alega que "tratava bem" — o promotor disse com desprezo. — Como se houvesse forma boa de explorar crianças.
17 Quite pediu para falar. O juiz, surpreso, permitiu.
18 — Fui prostituída aos doze anos. Antes da menarca. Sei exatamente o que é. Por isso nunca aceitei crianças ou pré-adolescentes. Catorze anos era o mínimo. E mesmo assim, na casa só houve um desvirginamento: a menina escondeu a virgindade — o cliente até se assustou com o sangue.
19 Depois vieram testemunhas. Policiais que tinham patrulhado o bairro. Algumas das próprias vítimas. Todos falaram sobre a forma de administrar de Quite: as regras, a proteção, a comida, os ganhos acima de outros puteiros.
20 Condenação: dez anos de trabalhos forçados, reduzidos à metade, graças aos testemunhos de policiais e até de suas vítimas sobre sua cafetinagem atípica.
21 Trabalhos forçados significava reconstrução. A guerra tinha destruído metade da nação. Quite foi designada como auxiliar de pedreiro. Carregava tijolos, misturava argamassa, limpava ferramentas. Trabalho duro. Das seis da manhã às seis da tarde. Sol escaldante. Mãos que sangravam no início, depois calejaram. Mas Quite não reclamava. Trabalhava em silêncio. Cabeça baixa. Fazendo o que mandavam.
22 — Pelo menos — ela pensava — não estou morta. E daqui a cinco anos serei livre.
23 No quinto ano, última semana de condenação, novo engenheiro assumiu a obra.24 — Engenheiro Aquino — ele se apresentou à equipe. — Vamos terminar esta escola.
25 Moço. Trinta e poucos anos. Magro, não atlético. Falava pouco. Mas conhecia o trabalho.
26 E tratava os condenados com respeito. Chamava pelo nome, não por número. Agradecia quando faziam bom trabalho. Nunca gritava.
27 Quite estava misturando argamassa quando ele se aproximou pela primeira vez.
28 — Você é... — ele consultou uma lista — Quitéria?
29 — Quite. Todos me chamam de Quite.
30 — Quite — ele repetiu. — Última semana de condenação.
31 — Sim, senhor.
32 Ele olhou o trabalho dela. Argamassa na consistência certa. Ferramentas limpas e organizadas.
33 — Você trabalha bem.
34 — Obrigada, senhor.
35 Ele ficou ali por um momento, como se quisesse dizer algo mais. Depois balançou a cabeça e se afastou. Quite o observou ir embora. Havia algo na forma como ele tratava todos — com dignidade, sem julgamento — que a intrigava.
36 Último dia de condenação. Quite com o rosto sujo, limpava as ferramentas pela última vez quando o Engenheiro Aquino se aproximou.
37 — Quite. Posso falar com você?
38 — Claro, senhor.
39 — Amanhã você está livre.
40 — Sim.
41 — Tem planos? Lugar para ficar?
42 — Não, senhor. Vou..., vou procurar algo.
43 — Tenho uma proposta. Preciso de auxiliar. Alguém que conheça o trabalho, seja confiável. Salário justo, moradia inclusa.
44 Quite o olhou com surpresa.
45 — O senhor... sabe por que eu fui presa?
46 — Sei. Li seu arquivo.
47 — E mesmo assim...
48 — Você cumpriu sua pena. Cinco anos. Trabalhou bem todos os dias. Isso me diz mais que o crime.
49 Ele estendeu a mão.
50 — Então? Aceita?
51 Quite olhou para a mão estendida. Primeira vez em cinco anos que alguém oferecia algo sem dar uma ordem.
52 Quite tentou limpar o rosto e a mão antes de responder:
53 — Aceito.
54 Os primeiros meses foram estritamente profissionais. Quite trabalhava, Aquino supervisionava. Ela aprendeu rápido — cálculos simples, leitura de plantas, técnicas de construção.
55 Aquino era chefe justo. Explicava quando ela errava. Pagava pontualmente. E nunca, nunca fazia perguntas sobre o passado. Até que um dia, dois meses depois, almoçando na obra, ele disse:
56 — Posso fazer uma pergunta pessoal?
57 Quite tensionou.
58 — Pode.
59 — Por que Kjrozia? Durante a guerra. Por que veio para cá?
60 Quite pensou na resposta.
61 — Porque guerra é bom lugar para o negócio que eu conhecia.
62 Ele concordou, sem julgamento.
63 — Honesto.
64 Quite replicou:
65 — Eu não chamaria de honesto.
66 — Honesto, teu posicionamento.
67 Ela olhou para ele.
68 — E você? Por que Kjrozia? Por que não ficou em Fontoura?
69 Foi a vez dele tensionar.
70 — Queria desaparecer de quem meu pai tinha sido.
71 — Seu pai?
72 — Era General. Cometeu... crimes. Crimes terríveis. E eu carrego o rosto dele.
73 — Por isto você usa barba...
74 Ele assentiu.
75 Silêncio.
76 — Então — Quite disse devagar — nós dois viemos fugindo.
77 — Ou recomeçando — ele corrigiu. — Depende de como olhamos.
78 Levou mais um mês para o primeiro convite.
79 — Quite — ele disse, nervoso. — Gostaria de jantar comigo? Não na obra. Um restaurante.
80 — Como... um encontro?
81 — Sim. Se você quiser.
82 Quite pensou. Três meses trabalhando com ele. Este homem — quieto, gentil, que nunca pressionou, nunca julgou — a convidava para jantar. Ele sabe que fui puta. Sabe que fui cafetina. E ainda assim...
83 — Quero.
84 O jantar foi desajeitado. Ambos nervosos. Conversas sobre trabalho, depois silêncios longos. Mas no fim, caminhando de volta, ele pegou sua mão.
85 — Podemos fazer de novo? Outro jantar?
86 — Podemos.
87 O primeiro selinho veio no final do segundo jantar.
88 No terceiro jantar, ele pediu ela em casamento e já trouxe a aliança de noivado.
89 Quite pisou no freio. Queria conhecê-lo melhor. Dois meses depois, se casaram.
90 Casamento simples. Juiz de paz. Duas testemunhas da obra. Sem festa.
91 Mas quando o juiz disse "podem se beijar", Quite chorou, pela primeira vez chorou de felicidade.
92 Compraram uma casa era pequena mas confortável e com um bom jardim. Quite ficou preocupada em como pagar, mas ele garantiu que tinha uma boa herança (brincou que ela dera golpe do baú).93 Três filhos criados, dois já casados. Quite tinha padaria no mercado. Aquino era engenheiro-chefe da reconstrução.
94 Vida boa. Tranquila.
95 Todo mundo em Kjrozia sabia quem era Aquino: o filho do Duque monstro de Fontoura.
96 A cada cinco anos aproximadamente apareciam jornalistas de Fontoura para noticiar como ele estava. Já tinham até publicado que ele se casara com uma ex-cafetina.
97 As filhas cresceram ouvindo sussurros, lendo manchetes antigas. Sabiam dos fantasmas dos pais. E amavam os pais mesmo assim.
98
Em Kjrozia poucos os julgavam. O povo tinha visto tanta violência,
tanta destruição, entendia recomeços. E via, todos os dias, o
trabalho honesto de Aquino, a padaria generosa de Quite.
99 Até a carta chegar. Aquino a leu três vezes antes de falar.
100 — Quite. Preciso te contar uma coisa.
101 — Delegação de Fontoura vem. Para discutir projeto de escola.
102 — E quem lidera a delegação é... Moema Fontoura. A Esposa do ex-rei.
103 — A vítima de teu pai — ela disse baixo.
104 — Uma delas, a mais famosa — Aquino disse.
105 Aquino sentou pesadamente.
106 — Vou ter que trabalhar com ela. O governo já designou. Eu sou o engenheiro-chefe.
107 — Você não é seu pai — Quite disse firmemente.
108 — Eu sei. Mas o rosto... a voz... Por um segundo, ela vai ver ele. E eu... — ele passou a mão pelo rosto — não sei se consigo aguentar ver o ódio nos olhos dela.
109 — Você já provou mil vezes quem você é. Para mim. Para nossos filhos. Para esta República inteira. Vai provar para ela também.
110 — E se eu não conseguir?
111 — Vai conseguir. Porque você não desiste. Nunca desistiu.
112 Três dias depois, Quite leu o jornal durante café da manhã. Deixou a xícara cair. Quebrou no chão.
113 — Quite? — Aquino se levantou, preocupado. — O que foi?
114 Ela apontou para o jornal. Mãos tremendo.
115 Aquino leu a manchete: "Delegação de Fontoura Chega na Próxima Semana". O texto explicava que Moema Fontoura lideraria discussões sobre implementação de escolas mandacaru em Kjrozia, e que viria acompanhada do marido, o ex-rei Júlio Fontoura.
116 — Quite? Por que isso te assusta?
117 — Eu o conheço — ela sussurrou.
118 — Conhece o ex-rei?
119 — Conheci. Há... há vinte e sete anos. Antes de vir para cá.
120 Aquino sentou lentamente.
121 — Como?
122 — Antes do bordel aqui. Eu trabalhava em Fontoura. Em... lugar ...
123 — Uma noite, ele apareceu. O irmão tinha levado. Príncipe jovem, nervoso. Bebeu para se acalmar, mas passou mal e eu cuidei dele.
124 — E?
125 — No dia seguinte ele mandou ouro. Muito ouro. Foi com esse ouro que vim para cá. Que abri a casa durante a guerra.
126 Ela abriu os olhos, lágrimas escorrendo.
127 — Ele vai me reconhecer. Vai lembrar de onde me conhece. E todos vão saber os detalhes que os jornalistas nunca descobriram... Aquino segurou suas mãos.
128 — Quite. Escuta. Júlio Fontoura foi príncipe. Passou a vida sendo treinado em etiqueta, em protocolo. Ele não vai expor ninguém sem razão.
129 — Mas se ele lembrar...
130 — Se lembrar, vai ser discreto. E além disso — ele apertou suas mãos — eu já sei. Sempre soube. Do arquivo, lembra?
131 — Mas você não sabia detalhes. Não sabia que foi ele especificamente...
132 — E isso muda algo? Você cuidou de um jovem doente. Ele pagou generosamente. Você usou o dinheiro para recomeçar. Onde está a vergonha nisso?
133 Quite começou a chorar.
134 — A vergonha está no que eu era. No que eu fazia.
135 — No que você fez para sobreviver. Você foi sequestrada, venderam tua virgindade... chegando aqui você fez o que sabia fazer — ele corrigiu. — E que você deixou para trás há vinte e sete anos.
136 — E se ele contar mesmo assim? Na frente de todos?
137 — Ele se casou com uma meretriz, que nunca escondeu isto. Ele, de todas as pessoas, não vai te julgar.
138 — Você tem certeza? Ela mal pode ser chamada de meretriz, uma semana... já eu... cheguei à madame...
139 — Não tenho certeza de nada. Mas sei que não vamos nos esconder. Enfrentamos juntos.
140 Sentaram as três filhas e os esposos na sala.
141 — Vocês já sabem da delegação que vem — Aquino começou.
142 — Sabemos — a mais velha disse. — E sabemos quem é Moema Fontoura.
143 — Há algo mais — Quite continuou. — Algo que os jornalistas nunca descobriram.
144 E contou. O bordel em Fontoura. O príncipe. O ouro. Como tudo começou.
145 — Então o ouro que abriu a casa aqui... — a filha do meio começou.
146 — Veio dele — Quite completou. — E ele pode me reconhecer. Pode contar.
147 A filha mais nova, a adolescente, falou:
148 — Mãe. A gente cresceu ouvindo os jornalistas. A gente sabe de tudo. Ou quase tudo. Mais esse detalhe... não muda nada.
149 O esposo da segunda filha disse: —Meus pais implicaram muito com o namoro, agora só faltam beijar os pés de vocês, de você minha sogra.
150 A mais velha se levantou, abraçou a mãe.
— A gente não tem vergonha de vocês. A gente tem orgulho. De quem vocês são. Do que construíram.
151 — Mesmo que ele conte? — Quite perguntou, voz embargada.
152 — Mesmo que conte — todos disseram juntos.

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